S.O.S. FERROVIAS - PARTE 3 Patrimônio público e histórico em ruínas
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quarta-feira, 16 de fevereiro de 2005
Adriana Savicki<br> Reportagem Local 
Arapongas - Diarista, mãe de duas filhas em idade escolar, Cecília Fernandes, de 39 anos, é caprichosa com a casa, mesmo que não seja sua e esteja longe de ser a tradução da moradia de seus sonhos. O chão que brilha de limpeza é parte da estação ferroviária de Aricanduva, na zona rural de Arapongas.
O prédio foi ocupado há cerca de sete anos por duas famílias da comunidade. Elas limparam a sujeira, religaram a água e energia elétrica, construíram paredes divisórias e banheiros. Cecília ocupou o local há cerca de um ano. ''Meu irmão morava aqui mas depois que me separei fiquei sem ter condições de pagar aluguel e ele me passou para cá'', afirma.
Segundo ela, o barulho ensurdecedor das locomotivas, que passam coladas ao fundo da casa - a antiga plataforma que foi cercada para dar mais segurança às crianças - já não assusta mais. ''A necessidade faz a gente acostumar'', revela.
Cecília conta que pessoas que se identificam como funcionários da ALL vêm tentado tirá-la do local. ''Mas não sei não, o último que veio queria me cobrar aluguel mas não tinha crachá nem documento nenhum. Sei que aqui é do governo e apesar de eu estar irregular a coisa está melhor com a gente do que antes. Era tudo abandonado e cheio de mendigos'', argumenta.
De certo modo, dona Cecília tem razão. Não é difícil encontrar prédios em situação muito pior. Com a privatização, em 1996, pelo prazo de 30 anos, a América Latina Logística (ALL) tornou-se responsável por todos os prédios da Rede Ferroviária Federal (RFFSA). Como boa parte não tinha uso, muitos foram devolvidos à Rede e estão sem manutenção desde então.
Se muitas estações dentro de áreas urbanas foram assumidas pelos municípios e viraram museus ou outras estruturas - como em Ponta Grossa, Londrina, Jaguariaíva, Arapongas, só para citar alguns exemplos - o que ficou fora do caminho do asfalto pede socorro. É a história e o patrimônio público ruindo aos poucos. Um dos muitos exemplos, é a antiga estação do Cará-Cará, na periferia de Ponta Grossa.
O prédio foi uma estação de passageiros da Rede Ferroviária Paraná Santa Catarina. Instalado ao lado de uma subestação em uso, a construção já não tem mais janelas, portas e assoalho - possivelmente roubados. Bastante comprometida, a estrutura do telhado também ameaça ruir a qualquer momento.
A extinção dos trens de passageiros e a modernização do sistema de comunicação das locomotivas - que excluiu as equipes de controle de tráfego - tornou as subestações obsoletas. Em toda malha sul, a RFFSA mantinha quase 150 estações. Mais de 80% delas foram desativadas após a privatização. A RFFSA afirma que, principalmente em realção aos prédios históricos, está tentando priorizar convênios entre prefeituras ou empresas para manter o patrimônio.


