Contrariando as vovós: sorvete em dias frios não é proibido. Pelo menos se o motivo for o medo de ficar resfriado ou com a garganta inflamada. ''Essa coisa é que nem tomar manga com leite. Tudo tabu'', resume a doceira Conceição Febrini. Ela e a família são viciados na sobremesa, independente da época do ano e da temperatura ambiente. O dono da sorveteria Gustatti Sorvetes Naturais, Edgar Guadanhin, completa: ''É só uma questão cultural. O brasileiro ainda não está acostumado'', afirma, com a segurança de quem trabalha há 12 anos no ramo.
Mas não pense que o posicionamento deles é apenas um mera opinião de quem adora ou vende sorvete. A área médica confirma. O residente em Otorrinolaringologia (que trata, entre outras coisas, de doenças da garganta) do Hospital Universitário, Marco Aurélio Fornazieri, explica que, se consumido em quantidades moderadas, o alimento não causa qualquer mal. ''Não tem relação direta entre uma coisa e outra. Nem se a pessoa já estiver resfriada'', garante. Agora se o consumo for exagerado, ele afirma que a temperatura baixa do alimento acaba desencadeando uma série de reações que podem complicar o quadro clínico de quem já estiver doente, ou fragilizar o sistema imunológico facilitando o aparecimento de qualquer doença relacionada.
A nutricionista da Clínica de Nutrição da Unifil, Clisia Mara Carreira, concorda: ''Além de não causar mal, ainda é uma boa fonte de proteína''. Mas não vale a pena ficar tão animado. A profissional logo pondera: ''Só que o sorvete tem uma alta concentração de gordura trans, que aumenta o colesterol ruim (LDL) e diminui o bom (HDL), por isso é preciso não exagerar''. Para evitar que os clientes se preocupassem com isso, Guadanhin mudou a fórmula dos sorvetes artesanais que produz; trocou a gordura hidrogenada por outras qualidades de leite e aumentou a quantidade de frutas. ''Pode até ser menos cremoso, mas certamente é mais saudável'', garante.
A família Febrini agradece. A mãe, Conceição, revela que é difícil faltar a sobremesa no congelador. ''Meu pai sempre disse que não faz mal algum. Mesmo no inverno. Então aqui é sobremesa obrigatória''. Principalmente se for de abóbora com coco, sabor predileto dela. A filha Giovana, que mora em Curitiba, antes de visitar os pais já encomenda um sabor específico. Um sobrinho já chegou a tomar sorvete no café da manhã. ''Não é exagero. Aqui a gente adora sorvete. Toda minha família é assim'', garante a doceira.
Os donos da sorveteria, Edgar e Marta, gostariam que todos os clientes fossem como os Febrini. Mas não são. ''Realmente nos meses frios o consumo cai em até 75%, e trabalhar com essa sazonalidade é complicado. Tem que investir no verão para garantir o inverno'', afirma o comerciante, que deve apostar na Copa do Mundo para lucrar um pouco mais este ano. Ele pretende incentivar a idéia de consumir sorvete com os amigos, nos dias de jogos. Ele conta que já tentou diversificar a oferta em dias frios. Ofereceu crepes suíços e chocolates quentes, mas não foi suficiente. Nem o ''sorvete quente'' emplacou.
Já as lojas da Sávio Sorvetes devem apostar em promoções especiais para o inverno. De acordo com Valéria Sávio, do setor industrial da sorveteria, a proposta é inovar nos lanches e cafés, aliando aos sorvetes. ''A venda cai mesmo nos dias frios, mas isso não necessariamente se reflete na venda em supermercados e padarias'', garante. A justificativa é de que as pessoas preferem consumir em casa. Para Conceição tanto faz. ''Se está frio para ficar na sorveteria, vamos pra casa. Se dá para ir até lá, vamos a pé. É bom que já vamos queimando umas calorias e podemos comer sem peso na consciência'', se diverte.

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