Em 1987, a vida de Edson Facundo, hoje com 41 anos, conhecido como ''Tiba'', sofreu uma mudança radical. Sua rotina de bicos para sobreviver artesanato, marcenaria foi violentamente interrompida. Preso por tráfico de drogas, Tiba foi levado para o antigo Cadeião de Londrina. Ele só não imaginava que ser surpreendido pela polícia com maconha fosse gerar consequências tão drásticas.
''Puxava a minha (pena) numa boa, até que veio o teste'', declara. Tiba se refere a uma parceria feita naquele ano entre a polícia e a Universidade Estadual de Londrina (UEL), que realizou exames de HIV em oitenta detentos. O resultado foi positivo para oito presos. Entre eles, Tiba, que era usuário de cocaína injetável. A notícia fez com que a vida de Tiba piorasse ainda mais. ''Passamos a ser discriminados dentro da própria cadeia. Fomos isolados num cubículo'', lembra. Em seguida, os oito soropositivos foram transferidos para o então Manicômio Judicial, em Curitiba, hoje conhecido como Centro Hospitalar.
''Sempre senti o preconceito. Dos próprios presos, da polícia, das autoridades e até da família'', afirma. O contato com o pai, por exemplo, só foi retomado poucos anos atrás. O preconceito existia até dentro do manicômio. A ala destinada para o grupo de soropositivos era sinalizada, ''com uma placa bem grande'': Isolamento.
Tiba acredita que só conseguiu deixar o manicômio, após dois anos e meio, por ser um ''agitador''. ''Escrevi uma carta para as autoridades e fui transferido de volta para Londrina, para perto de minha família''. Desde que foi libertado, em 1995, ele se dedica ao movimento de conscientização sobre a Aids. Cumpriu toda a pena de oito anos e sete meses em regime fechado, sem direito sequer a liberdade condicional ou redução de pena por bom comportamento.
Certa vez, em entrevista com uma assistente social do Manicômio Judicial, Tiba revelou sua vontade de processar o Estado para reparar as injustiças. O comentário da assistente foi marcante: ''Mas você acha que vai viver até lá?''. Não somente sobreviveu às adversidades como formou família. ''No dia em que ia falar sobre a doença com a companheira, recebeu a notícia que ela estava grávida. ''Graças a Deus, nem minha mulher, nem minha filha foram contaminadas'', emociona-se.
Atualmente, é voluntário da Associação Londrinense Interdisciplinar de Aids (Alia) e vice-presidente da Rede Paranaense de Redutores de Risco. A Rede é um programa do Ministério da Saúde que envolve usuários de drogas. ''Mostramos que eles têm direitos e deveres. Eu tenho mais liberdade de chegar e falar para eles sobre os riscos da doença e dar orientação'', revela. '' Não dá pra dizer que tem que usar camisinha e não pode usar droga. Tem de explicar por que'', salienta.

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