Misteriosos, perturbadores, sem nexo e sem moral, os sonhos invadem nossas noites de sono diariamente como estranhos sem convite. A vítima dessa ‘‘invasão’’ é nossa mente, que parece ter sido entorpecida para não se lembrar de muita coisa pela manhã.
  Mas ainda que muitas vezes o sonho pareça apenas um filme de ficção fantástica, sem qualquer conexão com a realidade, ele sempre tem algo importante a dizer. Segundo a psicanálise, sonhos podem ser interpretados para desvendar o conteúdo do inconsciente. Há quem sustente que contêm premonições e outros ainda que o utilizam para apostar em jogos de azar. E mesmo sob a luz da neurologia, que não se interessa pelo conteúdo dos sonhos, eles podem ajudar a diagnosticar distúrbios.
  ‘‘Todo mundo sonha, exceto pessoas que apresentam perturbações do sono e não conseguem chegar à fase REM (sigla em inglês para ‘‘movimento rápido dos olhos’’)’’, explica a neurologista Mônica Marcos de Souza, do Laboratório do Sono, em Londrina. É no REM que são ativados os circuitos do cérebro relacionados ao inconsciente. Segundo a médica, as pessoas também podem sonhar durante os estágios três e quatro do sono (profundos), mas com imagens em preto e branco, menos elaboradas.
  Mônica afirma que é normal uma pessoa esquecer dos sonhos ao despertar, o que não significa que eles não tenham ocorrido. Testes de laboratório mostram que indivíduos assim podem contar seu sonhos com riqueza de detalhes se despertados no meio da fase REM. E o que seria preocupante a ponto de valer uma visita ao médico? ‘‘Ter sonolência diurna excessiva, a ponto de cochilar e imediatamente sonhar, pode ser sintoma de narcolepsia. É uma doença que tira a concentração e atrapalha bastante as atividades do dia-a-dia’’, aponta.
  Normalmente, o REM chega cerca de uma hora e meia após o início do sono e ocupa em torno de 25% dele. O chamado distúrbio comportamental do sono REM se manifesta quando o indivíduo realiza o que sonha - caso de quem grita ou mesmo agride o companheiro de cama enquanto dorme. ‘‘É um problema que merece uma investigação’’, avisa.
  Para quem se interessa mais pelo conteúdo dos próprios sonhos, a Psicologia oferece algumas pistas do que eles podem revelar, o que difere conforme a linha seguida pelos profissionais. A mais famosa provavelmente ainda é a psicanálise de Sigmund Freud (1856-1939), médico austríaco considerado revolucionário por ter descoberto as ‘‘chaves’’ das interpretações dos sonhos. Sua teoria nada tem a ver com os vários dicionários de sonhos disponíveis no mercado (que trazem associações como ‘‘sonhar que está morto é prenúncio de riqueza’’), conforme esclarece o psicanalista Marcelo de Castro.
  ‘‘Isso tudo é folclore. Os sonhos revelam e mascaram ao mesmo tempo, por isso são difíceis de interpretar. Eles são como sintomas, nos dando pistas para entender o que está dentro do inconsciente. Mas isso se dá de forma individualíssima’’, diz. Junto com a livre associação de idéias, os sonhos formam a base das sessões analíticas, embora nem sempre sejam fáceis de ser resgatados. Castro afirma que o sonho revela desejos e conflitos ocultos, que o indivíduo reprime através do esquecimento. ‘‘Muitas vezes ele esquece tudo ao acordar, mas depois uma única palavra dita durante a sessão o faz lembrar claramente do que sonhou.’’
  Dois processos do sistema inconsciente descritos por Freud explicam por que os sonhos seguem enredos tão estranhos e pouco lineares. Um deles é o de condensação, em que diversas representações são agregadas numa mesma imagem (como a mistura de passado e presente). Já no processo de deslocamento, o ódio que se sente por alguém, por exemplo, é transferido para outra coisa ou pessoa ligada a esse alguém. ‘‘Além disso, os sonhos são absolutamente atemporais e amorais’’, observa o psicanalista. Ou seja, ninguém precisa se sentir um monstro por sonhar que estava matando com requintes de crueldade aquela pessoa querida.

mockup