Santo Antônio da Platina – Em meio a sorvetes, dois jovens trafegam nas imediações da praça principal de Santo Antônio da Platina. Apesar da pouca idade, os dois têm carros. Enquanto um empurra, meio sem jeito, seu carrinho de sorvete. O outro trafega, displicente, entre pedestres e motos. As semelhanças entre os jovens, assim como os seus veículos, não param.
As similitudes também esbarram na aspiração, ou melhor, no consumo. Eles querem um par de tênis e conhecem, como ninguém, os hits musicais e as capas de revistas. Os dois pretendem estudar Direito e obter sucesso. Eles acreditam que o curso oferece maior remuneração e mais oportunidades de trabalho. Os dois também frequentam as aulas e pensam no vestibular.
A identificação entre os dois se revela, inclusive, na aptidão pelo futebol e na vocação artística. Eles tocam violão, acreditam no trabalho e torcem pelo Flamengo. As roupas e acessórios também são parecidos. Usam bonés e sapatos com adereços norte-americanos. A semelhança inclui o brinco e o corte de cabelo.
Mas apesar das afinidades, eles não se olham. Mesmo com a proximidade e identidade, os olhares se recusam e não se cruzam. O primeiro, enquanto empurra o carrinho, mantém a cabeça abaixada e, às vezes, olha com desdém. Pelo sorriso que esboça em seguida, nota-se que não é maldade, é medo. O gesto é entendido e repetido pelo segundo. Em meio ao barulho ensurdecedor das músicas que tocam no som do seu carro, até as reações são similares. Talvez o sentimento de inconformismo também, assim como o desconforto de ter, na sua frente, alguém tão parecido e tão distante.
O jovem desajeitado com ar de criança tem menos de 18 anos. Ele confessa que a mesada diária é de, em média, R$ 30,00. Afirma que estuda durante o dia e passeia à noite. O motorista precoce nunca ouviu falar em programas federais e garante que vai se dar bem na vida. Ele conclui, em tom de ironia, que não acredita em políticos e conhece todos os cantores dos cd’s de seu carro.
O garoto que empurra o carrinho de sorvete confidencia que recebe diariamente, em média, R$ 2,00. Ele conta que trabalha durante o dia e estuda no período noturno. Nunca ouviu falar em programas federais e garante que vai se dar bem na vida. Essa criança, com jeito de adulto, diz que precisa ajudar em casa e sonha em ampliar o negócio. O jovem não acredita na polícia e conhece todos os bancos de praças e esquinas da cidade.
Absortos em suas vidas, como paralelas, eles percorrem o mesmo caminho, sem amparo e sem nome.

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