Lúcio Flávio Moura
De Foz do Iguaçu
Especial para a Folha
A esperança de melhorar de vida com a implantação do Plano Real foi desfeita rapidamente para três trabalhadores de Foz do Iguaçu. O dentista Francisco Lacerda Brasileiro, 33 anos, o servente de pedreiro Lourival Alves, 39 anos, e o açougueiro Roberto Kozievitch, 41 anos, sofrem hoje as consequências de quase três anos de juros altos, estagnação econômica e desemprego, conjuntura que derrubou os índíces de popularidade do presidente Fernando Henrique Cardoso.
‘‘O início do plano foi muito bom. Com o dólar barato, os gastos do consultório caíram e passamos a atender mais clientes de classe média baixa que antes do real não tinham como se tratar adequadamente’’, lembra Chico Brasileiro, um dentista paraibano que vive há nove anos em Foz, cidade que escolheu para se especializar em ortodontia.
A ‘‘bolha’’ de movimento se dissipou e Chico teve de refazer as metas otimistas traçadas em meio a euforia do primeiro ano da nova moeda. A carteira de 250 clientes não foi reduzida, graças à diminuição de sua margem de lucro e da adoção de prazos de pagamentos mais flexíveis.
‘‘Depois da desvalorização do real, a coisa se agravou. Tive que subir 30% os preços e os pacientes passaram a vir com menos assiduidade’’, lamenta. Com emprego e renda garantidos, Chico também é vítima da onda de desemprego que atinge 30 mil pessoas na região.
‘‘Além dos próprios pacientes que ficaram sem trabalho, deixei de atender crianças cujos pais perderam o emprego’’, conta. Problema nacional, a falta de ocupação é um drama maior na fronteira, que já abrigou em Ciudad del Este, um dos mais movimentados centros comerciais do mundo, onde muitos brasileiros trabalhavam. Hoje, as lojas da cidade paraguaia estão às moscas – resultado do dólar caro e da invasão de produtos importados legalmente pelo Brasil – e o comércio emprega cada vez menos brasileiros.
O operário Lourival Alves também é vítima de outro ciclo econômico que transformou uma cidade e depois se esgotou. Ex-soldador nas obras que ergueram a Hidrelétrica de Itaipu, Alves é, hoje, um excluído deste Brasil do final do século, idealizado nos gabinetes de Brasília.
A reengenharia e a competitividade derrotaram 14 anos de serviços prestados por Alves à unidade da Ceasa em Foz. Há dois anos e meio, ele e três colegas perderam o emprego de vigia no entreposto. ‘‘O Ceasa está com pouco movimento e terceirizaram nosso setor para diminuir os custos’’, explica.
No antigo emprego, o ex-vigia ganhava cinco salários mínimos e conseguia, sem pagar nada, farta quantidade de frutas e legumes, doada pelos produtores. ‘‘Era uma época boa. Dei a entrada em um terreno, construi minha casa e estava até pensando em comprar um carrinho, mas aí...’’
Esbarrando na falta de qualificação – Alves frequenta aulas noturnas de alfabetização para adultos – ficou desempregado por dois anos, período em que sobreviveu com trabalhos eventuais em pequenas construções e com a renda de seu filho adolescente, que também é servente de pedreiro.
Há quatro meses, Alves trabalha na construção de um prédio de três pavimentos, que lhe garante uma renda líquida mensal de R$ 275,00. A obra deve estar concluída somente no final do ano que vem. ‘‘Até lá quero poupar um dinheirinho para fazer um curso de vigia’’, planeja.
Para fazer o curso, exigido pela maioria das empresas que Alves procurou quando era desempregado, o interessado deve ter instrução equivalente à 4ª série do primeiro grau e desembolsar R$ 395,00. ‘‘No momento, não tenho nem um, nem outro’’, diz.
Mas o que mais preocupa o operário é a dívida de US$ 8 mil, referente a compra do terreno onde mora. ‘‘A alta do dólar me complicou. Vou pagar, mas não sei quando’’, confessa.
Outra história de frustração profissional decorrente da política econômica do governo FHC está guardada no pequeno açougue de Roberto Kozievitch, instalado há 13 anos na Rua Marechal Deodoro, no centro de Foz.
Massacrado pela concorrência das redes de supermercado que vendem carne e frango abaixo do custo e aceitam cheques pré-datado para atrair os clientes em tempos de crise, o açougue fatura hoje 20% do que faturava há seis anos. ‘‘Não tenho como competir com um grande empresário’’, diz Kozievitch, que chegava a comprar 30 bois abatidos por semana e hoje compra apenas seis.
‘‘Tenho freguês que comprava 10 peças de picanha por mês e que agora só compra uma, por falta de dinheiro’’, exemplifica. O açougueiro quer mudar de ramo, mas não consegue vender seu ponto. ‘‘Açougue nunca foi bom negócio. Agora, então, está com os dias contados’’, adverte.
Com saudades, o descendente de polonês relembra a era da inflação alta e do açougue lotado. ‘‘No sábado, o pessoal da favela aqui do lado, vinha em peso. Eles levavam carne de segunda, mas saiam feliz. Hoje, nem isso’’, conta.
Segundo Kozievitch, os mesmos fregueses que antes compravam agulha e ponta de peito para fazer o churrasco do domingo, procuram o açougue em busca das sobras dos cortes. ‘‘Tá vendo isto aqui?’’, diz, mostrando uma montanha de pelanca, gordura e sebo. ‘‘Dou tudo para eles, que ainda me agradecem. Quem sabe as coisas não melhoram e eles voltem a comprar a carne pro churrasquinho do domingo por aqui mesmo?’’, diz, sem muita convicção.

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