Lúcio Flávio Moura
De Foz do Iguaçu - Especial para a Folha
Em meio a multidão que passa depressa e se espreme entre as grades e a mureta da Ponte da Amizade, via que une Paraguai e Brasil, não é difícil ver rostos infanto-juvenis suados carregados com o esforço do trabalho, uma necessidade na luta diária contra a miséria.
Lá fica o pequeno mundo de Dionísio Prieto, 12 anos, um garoto trilingue que acorda diariamente antes do sol raiar e assume a tarefa de ajudar seu pai a montar a barraca de camelô no fervilhante centro comercial de Ciudad del Este.
De lá, o garoto segue para cursar a 4ª série do 1º grau de uma escola pública da cidade, onde fica até as 11 da manhã.
Dionísio não gosta de ficar em casa, onde vivem em quatro cômodos pai, mãe e seis irmãos. Merenda na rua, com uns trocados que seu pai lhe dá. Com o estômago cheio, ele assume o comando de seu carrinho ganha-pão, com o qual ‘‘exporta’’ cigarros, eletrônicos e brinquedos para o Brasil.
O garoto é forte. Trabalha até escurecer empurrando 30, às vezes 40 quilos. Quando os adultos brasileiros lhe dão uma folga, ele volta a seu país para comer chipa, espécie de biscoito à base de milho, alimento obrigatório para qualquer paraguaio no meio da tarde.
O pequeno paraguaio quer ser motorista de ônibus quando for um chirú (forma pejorativa que os brasileiros tratam os paraguaios pobres) adulto, influência do tráfego pesado que transpõe o Rio Paraná dia e noite, maltratando seus ouvidos e entopindo seu nariz de poluição.
Mas o sonho da infância que já está acabando tem duas rodas. ‘‘Queria ganhar uma bicicleta mas é muito caro, tenho que trabalhar’’, lamenta o garoto, que no final do dia de trabalho contabiliza 5 mil guaranis (pouco mais de R$ 3,00). Ele não sabe qual data é comemorada o Dia da Criança no Paraguai. ‘‘No Brasil está perto. Eu sei porque nesta época eu carrego muito brinquedo no meu carrinho’’, explica.

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