Sonho de ganhar dinheiro vira pesadelo
Lucinéia Parra
De Maringá
O sonho de ir para o Japão se transformou em um pesadelo. O desabafo é da manicure Rosane Silva Itakura, 35 anos, que junto com o ex-marido planejou uma vida mais tranquila após um período de trabalho no Japão. O casal sonhava em alcançar uma condição financeira estável e com isso proporcionar um futuro melhor aos filhos.
O sonho não se realizou. Rosane se separou do marido e passou pelos momentos mais difíceis de sua vida. O conforto dos filhos, que era o objetivo principal da ida ao Japão, também foi comprometido. A estrutura familiar foi atingida em cheio pela desconfiança, egoísmo e falta de cumplicidade entre o casal.
A também manicure Cristina Barreto, 33 anos, tem uma história parecida. O ex-marido foi para o Japão em busca de uma vida melhor para a família. Voltou para o Brasil pela última vez há sete anos para se separar dela. Desde então, os dois filhos do casal só mantém contato telefônico com o pai a cada seis meses ou até mesmo por um período mais longo.
Já ficamos sem notícia dele por quase um ano, diz Cristina. O ex-marido não permite que os filhos e ela própria saibam onde ele mora atualmente, e muito menos fornece o número do seu telefone no Japão. Quando descobrimos o celular dele no Japão, depois da primeira ligação que minha filha fez, porque estava com saudades, ele mudou o número, conta.
Nos dois casos, os filhos são vítimas da falta de carinho, atenção e presença dos pais. Há muito tempo não comemoro o Dia dos Pais com o meu pai, por isso para mim este dia não tem mais importância, lamenta Vitor Hugo Itakura, 14 anos. Ele afirma que se decepcionou com pai. Eu gostava muito dele, mas ele não quer mais a gente. Eu sinto muito mágoa, desabafa.
Vitor Hugo chegou a ir para o Japão junto com a mãe em 1995. Na época, ele era o único filho do casal. Rosane conta que decidiu viajar com o filho na terceira vez que o ex-marido, Jorge Itakura, se preparava para voltar ao país do sol nascente.
Estava cansada de ficar sozinha em Maringá. Meu filho sentia muita saudade dele, então decidi ir com o meu marido com o objetivo de juntos trabalharmos para depois voltarmos definitivamente ao Brasil. Depois de dois anos, ela voltou para Maringá junto com Vitor Hugo e grávida do segundo filho. O marido decidiu ficar mais um ano no Japão.
Depois da segunda vez que meu ex-marido voltou do Japão, ele já estava diferente. Suas atitudes eram mais egoístas e ele não se adaptava em nenhum trabalho em Maringá, diz. Com o dinheiro que Jorge economizou trabalhando no Japão, o casal decidiu comprar uma loja de confecçções em Maringá.
A família acabou perdendo o estabelecimento. Ele não ficou comigo em Maringá e voltou pela quarta vez ao Japão, mesmo contra a minha vontade. Nesta quarta vez de retorno ao Japão, Itakura se tornou mais ausente. Nós fomos praticamente abandonados, lembra Rosane.
Segundo ela, durante os últimos três anos no Japão, Itakura não mandava nenhuma pensão, não escrevia, não ligava e ainda mudou de endereço e de emprego. Não tínhamos como entrar em contato com ele, mas mesmo assim eu escrevia para o endereço que eu tinha, pedindo para que ele me falasse o que estava acontecendo.
Na tentativa de conseguir informações do marido, Rosane conta que procurou diversas vezes os pais de Itakura. Eles diziam que também não tinham informações de Jorge. No final do ano passado, depois de passar por dificuldades financeiras, Rosane buscou ajuda na prefeitura da cidade.
Fui pedir uma passagem para o Japão porque eu tinha que saber o que estava acontecendo. Ele podia estar doente, como tinha acontecido quando eu estava lá. Fosse o que fosse, eu precisava saber porque meu filho não parava de perguntar pelo pai. Ele (o filho) queria ir para o Japão atrás do pai.
A atitude de Rosane chegou ao conhecimento de Jorge - ela não sabe como. Dois dias depois de buscar ajuda para viajar para o Japão, o ex-marido telefonou para a vizinha de Rosane, em Maringá, e disse que estava muito doente. Em seguida voltou para o Brasil, mas o casamento de Rosane e Jorge já não tinha mais sentido.Mulheres perdem os maridos que foram trabalhar no Japão; pais dekasseguis esquecem que têm filhos no Brasil
Fotos Marcos NegriniCONSEQUÊNCIAS NEGATIVASRosane e os filhos Hugo e Ronaldo (acima): estrutura familiar atingida pela falta de cumplicidade entre casal; ao lado, lembranças amargas e revolta torturam Rosane ItakuraCristina, Emily Thalita e William: distância acabou com o carinho do pai com o casal de filhos





