Sonho de ficar rico movimenta FORTUNAS
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sábado, 30 de setembro de 2000
Silvana Leão De Londrina 
Tarde de quinta-feira. Dentro do prédio localizado no centro de Londrina, uma voz feminina comunica ininterruptamente aos presentes os números sorteados. São 15 horas e a casa de bingo está com quase todas as mesas ocupadas, a maioria por mulheres. São donas de casa, vendedoras autônomas, estudantes, e comerciantes, entre outras, que engrossam um grupo cada vez maior de pessoas que procura as mesas de jogos na tentativa de ganhar um dinheiro extra sem muito esforço.
A esperança de sair do sufoco ou até mudar de vida com a ajuda da sorte movimenta verdadeiras fortunas no País todos os meses. Só a Caixa Econômica Federal arrecada R$ 219 milhões, em média, por mês. Deste valor, R$ 6,2 milhões são repassados para programas e fundos sociais do governo. Nos últimos nove anos foram lançadas 11 modalidades de jogos (quatro deles já suspensos. A mais recente é o Bolão Federal, lançado em maio deste ano.
Entre as opções de jogos que continuam à disposição dos apostadores nas casas lotéricas, a mais antiga continua sendo a Loteria Federal (tradicional de bilhetes), criada em 1962. A Loteria Esportiva, instituída em 1970, é outra das modalidades tradicionais, que divide espaço com a Loteria Instantânea, Quina, Mega-Sena, Supersena Dupla Chance, Lotomania e Bolão Federal.
Além de todos estes jogos, institucionalizados pelo governo, os que gostam de desafiar a sorte ainda podem fazer sua fezinha nas inúmeras bancas de jogo-do-bicho ou passar a tarde num dos quatro bingos instalados em Londrina. Só no mais novo deles, na área central, cerca de 220 pessoas disputam todos os dias um lugar nas mesas e terminais de jogos durante a primeira rodada, que é gratuita. No resto da tarde e noite adentro, o público fica em torno de 120 pessoas.
O horário exerce influência também no perfil dos jogadores. Durante o dia, a grande maioria é de mulheres entre 35 e 60 anos. À noite predominam os homens, também acima dos 35 anos. Segundo o gerente Nildo de Paula Pacheco, do Bingo Central, é difícil definir a classe social mais comum entre os frequentadores. Ele imagina que a clientela seja eclética. Tanto há os que gastam dinheiro todos os dias jogando, como há aqueles só vêm para a 1ª rodada.
O movimento nessas casas de jogos é grande, mas os empresários afirmam que, embora as pessoas estejam frequentando mais, estão gastando menos. Aumentou muito o volume de gente, mas a arrecadação é praticamente a mesma, garante o gerente do Bingo Quintino, Roger Fernandes de Souza. Para abrigar o maior número de frequentadores, a casa passou dos 300 metros quadrados da época da inauguração, há 2,5 anos, para 900 metros quadrados.
Segundo Souza, o bingo se mantém com um movimento médio de 150 pessoas por dia. O forte é durante a semana, quando vem inclusive gente de cidades vizinhas. Souza concorda que, durante o dia, predominam as mulheres nas mesas e terminais de jogos.
A dona de casa L.T.O., de 69 anos, enquadra-se naquele grupo que costuma aproveitar a rodada gratuita oferecida pelo dono do bingo. Faz anos que frequento bingos e sempre que posso vou jogar, principalmente na 1ª rodada. Ela diz que só investe em novas cartelas no dia em que consegue ganhar algum dinheiro. Mas sempre acaba levando uns trocados para casa, que usa para comprar alimentos e até para se vestir. Já cheguei a ganhar R$ 100,00 numa tarde, revela.
Mas outra dona de casa, M.C.V., de 30 anos, é a prova de que o jogo pode ser um vício perigoso. Ela frequenta diariamente as mesas de bingo escondido do marido. Ele não pode saber, senão é briga na certa. Isso porque M.C.V. já perdeu muito dinheiro jogando. No começo meu marido não ligava, mas quando descobriu os rombos na nossa conta, proibiu que eu viesse. Ela conta que perdia R$ 150, até R$ 180 por dia.
Hoje a dona de casa diz que se controla para não ter tanto prejuízo, mas não consegue deixar de jogar. Acho que deveria ter uma casa de recuperação para pessoas como eu, porque isso é um vício. Todos os dias M.C.V. deixa os filhos com a mãe durante aproximadamente duas horas para poder frequentar os bingos. Cada dia vou em um, revela.
Além de mulheres e homens que vão ao bingo escondidos de seus cônjuges, há trabalhadores que dão uma escapadinha do serviço, estudantes que enforcam aulas e até vendedores autônomos que encerram a semana de trabalho mais cedo (geralmente no início da tarde de sexta-feira) para tentar levantar um dinheiro extra. Entre os muitos jogadores, só uma minoria não faz questão de permanecer no anonimato.
Dessa minoria faz parte a comerciante Marilene Albuquerque, de 60 anos, que frequenta a casa de jogos pelo menos três vezes por semana, para distrair e também para ganhar dinheiro. Ela conta que já chegou a ganhar uma motocicleta no bingo e em outra ocasião, em apenas um dia, faturou R$ 300,00. Mas não é sempre que isso acontece. Às vezes não conseguimos ganhar nada.
Marilene diz ser ponderada. Gasto, no máximo, R$ 10,00 por dia. Agora, se ganho um prêmio maior, deixo tudo aqui. A comerciante conta que também é fã do jogo-do-bicho e joga há vários anos.
Londrina tem ao todo quatro casas de bingo, número máximo permitido pelo Serviço de Loterias do Paraná (Serlopar), tendo em vista a população do município. A portaria nº 008/2000, que limita a quantidade de bingos nos municípios em uma casa para cada 140 mil habitantes, foi baixada em maio deste ano. Um dos objetivos da portaria é evitar a proliferação dos bingos e garantir que as casas tenham condições financeiras para honrar com seus compromissos junto aos clientes. Em todo o Paraná são 26 casas em funcionamento.


