Betânia Rodrigues
De Londrina
Especial para a Folha
Cada vez menos a família interfere na escolha da carreira que os jovens devem seguir. Apesar disso, muitos deles acabam optando pela profissão dos pais como uma maneira de facilitar o acesso ao mercado de trabalho. Esta é a opinião de dez alunos de cursos pré-vestibulares de Londrina consultados ontem pela Folha.
‘‘Na verdade, eu pretendia cursar engenharia elétrica, mas não passei em 99. Meus pais também acharam que eu teria um futuro melhor se fizesse odontologia, assim como minha irmã. A idéia é um dia montarmos um consultório juntos’’, disse Bruno da Silva Coppo, candidato ao vestibular da Universidade Estadual de Londrina (UEL).
Lucas Costa Novis, ao contrário, pretende tomar um caminho bem diferente do pai e da irmã, que são médicos. Ele já fez cinco meses de engenharia da computação na Universidade Norte do Paraná (Unopar) no início do ano passado e agora vai tentar direito. ‘‘Não quero a rotina de vida deles para mim. Engenharia da computação também não era o que eu esperava. Acho que dessa vez acertei na escolha.’’
De acordo com o professor de cursinho Douglas Vieira da Silva a remuneração profissional é um fator de peso na escolha da carreira entre os jovens. Ele disse ter exemplos de alunos que não têm muita certeza sobre a opção feita, mas se conformam ao saber que no futuro poderão ter uma rentabilidade maior.
O vestibulando Diego Garcia Nogueira concorda com ele, mas acredita que ainda vale a pena fazer o que gosta. ‘‘Mesmo com o mercado saturado, uma pessoa pode ter sucesso. Isso vai depender, é claro, da vontade e empenho dela.’’ Nogueira vai tentar uma vaga no curso de economia da UEL. Embora o pai seja administrador, ele nega que tenha sofrido qualquer influência dele. ‘‘Para mim, o ideal é buscar um meio-termo entre fazer o que se tem vontade e aquilo que pode dar uma boa remuneração’’, afirmou.
Para Cassimélia Prado, a razão de tanta preocupação com o dinheiro é o alto índice de desemprego que vem afetando diversos ramos de atividade. Ela quer ser advogada e depois de formada pensa em trabalhar com um amigo que já tem um escritório.
No curso pré-vestibular do Projeto Educação do Jovem na Universidade (PEJU), coordenado pela Associação Projeto Educação do Assalariado Rural Temporário (APEART), a situação não é diferente. A única diferença, segundo Silva, é que nesse curso os alunos, em geral, procuram áreas menos concorridas e exclusivamente universidades públicas.
‘‘Como é um curso para pessoas de baixo poder aquisitivo, o vestibular em instituições particulares é praticamente descartado. Exatamente por isso notamos um grande esforço deles que, em 90% dos casos, trabalham o dia todo’’, comentou Silva, que há três anos trabalha com os vestibulandos do PEJU.
Esse trabalho existe desde o segundo semestre de 95 e atende a pessoas que não têm condições de pagar um curso pré-vestibular particular. As aulas acontecem de segunda à sexta-feira, das 19 às 23 horas, no salão paroquial da igreja de Nossa Senhora das Graças, na Vila Brasil, centro da cidade.
Josimeire Giovana Duarte Dias faz parte do grupo de 20 alunos do PEJU que no final de semana participam do vestibular da UEL. Ela terminou o ensino médio no final do ano passado e já fez dois semestres do cursinho. ‘‘No vestibular de julho não passei porque a concorrência estava muito alta. Acredito que agora terei mais chance’’, disse a candidata ao curso de serviço social.Vestibulandos admitem que escolhem a profissão dos pais como uma maneira de facilitar o acesso ao mercado de trabalho
Dorico da SilvaFUTUROAlunos de um cursinho de Londrina: remuneração profissional pesa muito na escolha da carreiraDorico da SilvaMUDANÇALucas Novis: da engenharia para o direitoDorico da SilvaCassimélia Prado quer ser advogada e trabalhar com um amigo que já tem escritório: desemprego preocupaDorico da SilvaDiego Nogueira acredita que vale a pena fazer o que gosta: ‘‘Mesmo com o mercado saturado, uma pessoa pode ter sucesso’’Dorico da SilvaBruno Coppo pensou em fazer engenharia elétrica, mas mudou para odontologia e tem planos de montar consultório com a irmãPaulo WolfgangJosimeire Dias faz parte do grupo de 20 alunos do PEJU que tentará uma vaga na UEL a partir de domingo