Conjunto de imagens permite à criança escolher uma letra do alfabeto e ver a associação dela com uma figura de animal ou objeto
Conjunto de imagens permite à criança escolher uma letra do alfabeto e ver a associação dela com uma figura de animal ou objeto | Foto: Jesher Heliel Rodrigues



A vida é permeada por problemas e, muitas vezes, eles parecem difíceis de serem resolvidos. Os desafios do cotidiano, porém, podem ter soluções criativas. Nesse universo de inovações, pelo menos duas iniciativas se destacam por oferecer ferramentas que podem facilitar a vida de pessoas: um aplicativo para auxílio da aprendizagem de crianças com transtorno do espectro autista (TEA) e uma nova versão da fonte Libras.
Jesher Heliel Rodrigues, de 23 anos, desenvolveu o OTO, um aplicativo Android para auxílio da aprendizagem de crianças com TEA. O software consiste em auxiliar crianças em diferentes graus de autismo no aprendizado do alfabeto de uma forma interativa e totalmente simples, com associações de imagens e sons.
O aplicativo, que significa "Olhar, tocar e ouvir", foi criado como trabalho de conclusão do curso de Tecnologia em Análise e Desenvolvimento de Sistemas, que ele fez na Faculdade Guairacá, em Guarapuava (Centro). "A ideia surgiu vendo a dificuldade do meu sobrinho de 10 anos, diagnosticado com autismo, em aprender o alfabeto e sua pronúncia", relata o jovem. A facilidade com que seu sobrinho manuseia tablets e celulares foi determinante para materializar a proposta de criar um app.
"A ideia é muito simples. O aplicativo consiste em um conjunto de imagens que permite a criança escolher uma letra do alfabeto e ver a associação dela com uma figura de animal ou objeto, então ela vai aprendendo de uma forma dinâmica e divertida", relata Rodrigues.
O jovem explica que foi elaborado um questionário para os professores avaliarem o desempenho do OTO com relação à capacidade de usabilidade e efetividade. "O questionário foi respondido por professores que trabalham na Associação dos Amigos dos Autistas (AMA), em Maringá (Noroeste). O teste foi realizado com 24 crianças da instituição. Como o objetivo do trabalho era criar algo simples e de fácil manuseio, a questão de facilidade de manuseio teve um resultado satisfatório", ressalta.
Na avaliação, cerca de 70% dos professores concordaram totalmente com a facilidade no manuseio. E a maior parte dos professores (71%) acredita que o OTO proporciona autonomia. "O resultado se mostrou muito gratificante. A repetição sonora tanto das letras como de palavras associadas às imagens demonstra a imersão da criança no sistema. Nesse aspecto, 85% dos professores afirmam que houve repetição sonora da letra", destaca. Além desse questionário, foi possível coletar dados de usabilidade do aplicativo, através do Google Analytics, para saber qual tela a criança mais clicava, quanto tempo ela ficou usando o aplicativo, qual foi a letra que ela mais ouviu o som.
Depois que o aplicativo foi disponibilizado no Google Play, Rodrigues conta que recebeu e-mails do Brasil inteiro, de mães e professores elogiando o aplicativo. "Esse aplicativo foi além da nossa expectativa. Foi com intuito de ajudar meu sobrinho, mas que no final tem ajudado outras crianças e famílias do Brasil inteiro. A partir desse aplicativo foi possível perceber como é grande a dificuldade em interagir e comunicar das crianças com TEA", expõe.
O jovem observa que o OTO não resolve todas as dificuldades que existem no ensino de crianças com autismo, mas ajuda no processo de aprendizado. "O aplicativo mostrou-se totalmente benéfico e de fácil interação em qualquer idade. Não apenas para autistas, mas para todas as crianças, as quais os pais e professores buscam novas ferramentas para o ensino", ressalta.
Atualmente Rodrigues é mestrando em Informática na Universidade Federal do Paraná (UTFPR), em Curitiba, e está desenvolvendo mais um aplicativo nessa linha, focando em expressões faciais de crianças com autismo. "Temos planos de criar um startup para desenvolver aplicativos para ajudar todas as pessoas que sofrem de algum transtorno; estamos buscando parceiros para ajudar nesse sonho", declara.
Rodrigues ficou em terceiro lugar no 1º Prêmio Sercomtel de Inovação, realizado em 2016. "Me senti muito feliz, e minha professora orientadora, Ana Carolina Lima, ainda mais. Ficamos muito surpresos também, sempre conversávamos que o OTO precisava de um reconhecimento para poder atingir ainda mais pessoas", declara.

mockup