É uma ilusão achar que problemas como o déficit habitacional, o desemprego e outros conflitos urbanos podem se resolver somente dentro das cidades. A solução passa, necessariamente, pela distribuição da propriedade privada da terra. A avaliação é da professora de Geografia Econômica e Agrária da Universidade Estadual de Londrina (UEL), Eliane Tomiasi Paulino.
A pesquisadora afirma que o inchaço urbano está estruturalmente vinculado ao esvaziamento do campo, processo que se intensificou entre os anos 60 e 80 com a adoção de modelos técnicos que dispensavam a força de trabalho. Ao se estabelecer em metrópoles como Londrina, as famílias oriundas do campo viveram um processo de exclusão social que hoje já atinge uma terceira geração.
''Hoje temos o déficit habitacional como resultado de processos como a dinâmica demográfica, e sabemos que nas áreas periféricas há uma relação de nascimentos muito maior. E é uma escala geométrica: o pai foi expulso do campo, teve cinco filhos, que tiveram mais cinco filhos cada e a cidade virou isso aí'', relaciona. Para Eliane, vivemos num modelo ''insustentável e implosivo'', em que ''o Estado entra como bombeiro, com políticas de minimização de conflitos, mas nunca consegue atender a demanda''.
A alternativa seria criar núcleos de ocupação sustentáveis, onde famílias pudessem morar e daí tirar grande parte daquilo que consomem. ''Você não tem como chegar num empresário e dizer: o senhor é obrigado a criar dez empregos este mês. A cidade não absorve a todos. Só existe uma forma de resolver o problema: repensando a distribuição da terra'', defende a docente, lembrando que a violência extrema que assistimos atualmente pode ser vista como uma das consequências da marginalização.
Eliane observa que o argumento de que os cidadãos não têm mais vocação para o campo é discutível. De acordo com ela, não é à toa que 75% dos integrantes de movimentos de luta pela terra são pessoas que ''já estão na cidade, mas nunca se integraram a ela''. ''Meu palpite é que muitos dos que estão fora do mundo da produção, que não conseguem trabalho, não têm uma casa para morar, gostariam de ir para um lugar onde tivessem tudo isso, inclusive se fosse o campo'', arrisca. (V.N.)

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