Londrina – "Eu nem sei como explicar o quanto o Projeto Sabão foi importante pra mim", diz emocionada a zeladora Maria Aparecida Lima, de 44 anos. Ela morava no Jardim Santa Fé (zona leste de Londrina), quando recebeu as chaves da nova casa no Residencial Vista Bela, na zona norte. Após problemas familiares, Maria Aparecida decidiu recomeçar a vida sem o marido. "Nunca faltou comida para os meus dois filhos, mas, logo depois da mudança, precisei sair muitas vezes de casa sem almoçar", confessa.
Mergulhada em dívidas e sem dinheiro para comprar alimentos, a zeladora foi acolhida por uma voluntária do Projeto Sabão e passou a receber frutas, verduras e legumes uma vez por semana. A idealizadora do projeto, Iraci Andrade dos Santos, conta que já atendia famílias que moravam nos assentamentos de Londrina. A aposentada decidiu estender o projeto para o Vista Bela, já que muitas dessas famílias se mudaram para o novo bairro. No entanto, ao chegar ao residencial, ela se deparou com milhares de pessoas que precisavam de ajuda.
Assim como a idealizadora do Projeto Sabão, outros voluntários atuam no local e tentam amenizar a falta de estrutura no residencial, cujas primeiras casas foram entregues há dois anos e meio. De lá para cá pouca coisa mudou, segundo os moradores, que se sentem abandonados pelo poder público. Eles reclamam da falta de serviços básicos, como unidade de saúde e escolas. Conforme o levantamento feito pela Companhia de Habitação de Londrina (Cohab), em 2012 o Vista Bela abrigava mais de 8,2 mil moradores nas 2.712 unidades, entre casas e apartamentos.

Monitoramento
O Projeto Sabão, também conhecido como Casa Acolhedora Mãe Rainha, consegue atender mais de 300 moradores. Outras 50 famílias estão na fila de espera. A falta de voluntários e de doações impedem a ampliação das atividades no local. Diante das necessidades, foi necessário cadastrar quem mais precisavam de ajuda. "Não consigo ajudar todo mundo, mas meu projeto não tem limite e essas pessoas não podem esperar", resume Iraci. Além de garantir a alimentação da semana, o grupo também fornece sabão em pedra para que os moradores possam manter a higiene e a limpeza das casas. Visitas frequentes também monitoram se as donas de casa utilizam os alimentos e os produtos de limpeza de forma correta para evitar o desperdício.
São gastos R$ 350 por semana na compra das frutas, verduras e legumes. Produtores da Ceasa também doam parte dos alimentos. Mais de 300 pedras de sabão são produzidas todos os meses pelos voluntários. Apesar da assistência, dona Iraci explica que a carência das famílias vai além. "Eu converso com eles, dou conselhos, encaminho para vagas de trabalho e para escolas. Eu não deixo esse pessoal ficar encostado", garante. Como resultado, dez famílias deixaram de ser atendidas pelo projeto em 2013. "Eles sabem que muita gente precisa ser ajudada aqui. Quando eles conseguem se virar, eles pedem que o projeto passe a ajudar outras pessoas", conta.
Com mais recursos, a zeladora Maria Aparecida Lima deixou de receber os alimentos e se tornou uma voluntária. Os produtos são entregues na garagem da casa dela. Maria Aparecida também fez uma horta comunitária no bairro. Dora Iraci tem planos de expandir as atividades do projeto no Vista Bela tendo em vista o número de crianças existentes no bairro. "Já que falta estrutura, a gente quer ver se consegue um espaço para oferecer, pelo menos, recreação. Quando tem festa aqui, as crianças choram de alegria", diz.

Pais e filhos
Mãe de quatro filhos, Josiane Aparecida Machado, de 36, recebeu apoio da Pastoral da Criança para reforçar a alimentação em casa. A família sobrevive com R$ 198 do Bolsa Família e a renda dos trabalhos temporários conseguidos pelo marido. A filha mais nova do casal nasceu aos seis meses de gestação. Yasmim pesava 800 gramas. Depois de permanecer na UTI do Hospital Universitário, a menina ganhou peso, mas ainda precisava de cuidados especiais. Hoje, com um ano e três meses, a menina atingiu 8,1 Kg. "Sem creche, eu não consigo trabalhar e não tenho dinheiro para comprar as coisas de casa. Eles me ajudaram com a lata de leite especial e com a multimistura. Meus filhos todos ganharam peso. Ainda bem que tem gente que se importa com a gente", diz Josiane.
A Pastoral da Criança deu início às atividades no Vista Bela em junho do ano passado. Hoje o grupo com cinco voluntárias atende 61 crianças e quatro gestantes. A multimistura, composta por sementes de abóbora e de girassol, farelos de arroz e de aveia, farinha de trigo e fubá, é distribuída para as famílias e garante parte dos nutrientes necessários para o desenvolvimento na infância.
De acordo com o levantamento feito em 2012 pela Companhia de Habitação de Londrina, 1.272 crianças até seis anos moravam no Vista Bela. A líder da pastoral no bairro, Marta Maria Machado, admite que faltam voluntários para desenvolver projetos. "Os menores não têm onde brincar. Não tem um projeto de esporte. Aqui no Vista Bela é muita promessa, mas nada acontece", lamenta Marta. Mãe de 11 filhos, sendo oito adotivos, ela tenta garantir a saúde das crianças do bairro.
A voluntária Tereza Yoko conta que a população assistida também recebe orientação e apoio dos vicentinos da Conferência Sagrado Coração de Jesus. "A doação feita pela comunidade chega até os moradores por meio desse trabalho", destaca. Além de cestas básicas, os vicentinos já ofereceram um curso de panificação em parceria com outras instituições. "Neste ano, a ideia é trazer vários cursos para o bairro, para facilitar o deslocamento das famílias", explica.

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