Soldado Tanan, o pioneiro na educação de trânsito
Juntamente com seus pais e oito irmãos, Pedro Tanan Boaventura chegou em Londrina há quase 40 anos, quando tinha 14 anos de idade, vindo do município de Rui Barbosa, no interior da Bahia. Viemos, como milhões de nordestinos, expulsos pela seca que castigava e continua castigando a gente humilde do sertão brasileiro. Quando cheguei em Londrina e vi a água brotando da terra, saindo pelas torneiras, minha primeira reação foi começar a chorar, conta ele.
Depois de trabalhar durante alguns anos com a família em fazendas e sítios de Londrina, como empregados ou parceiros, Pedro Boaventura veio para a cidade para completar os estudos em colégio estadual. Trabalhou um tempo como estampador, e entrou na Polícia Militar (PM) há 28 anos, realizando um sonho que diz acalentar desde criança.
Logo na primeira semana, levei um forte choque. A decepção com o ambiente militar foi grande e instantâneo. Eu vinha de família pobre, humilde, mas onde o ambiente era saudável e as relações muito carinhosas, afetivas. O trabalho bruto e agressivo da PM me deixou inicialmente atordoado, lembra Pedro Boaventura. Não me adaptei àquela rotina de camburão, viatura, perseguir e prender bandidos. Frustrado, pensei em abandonar tudo e fui falar com o comandante. Disse a ele que sairia da corporação se não houvesse outra função para mim.
Foi assim que teve início a carreira do primeiro PM educador do trânsito de Londrina. O soldado foi remanejado para prestar guarda e apoio no trânsito diário em frente à Escola Nossa Senhora de Lourdes, na Vila Siam (zona leste), onde trabalhou por cerca de 10 anos. Foi lá, no contato direto com as crianças e motoristas, que tive a idéia de fazer algo maior em prol da comunidade, das pessoas, e da população londrinense. Passei então a trabalhar, exclusivamente, na educação de trânsito para crianças das quatro séries do 1º grau. Já são mais de 17 anos, nos quais visitei quase todas as escolas de Londrina e cidade vizinhas, dando milhares de palestras para milhares de alunos, conta Pedro Boaventura.
O soldado - casado, com três filhos e uma neta - hoje tem 53 anos e se diz feliz com as atividades que desempenha. Apesar de não ter formação superior, me especializei em trânsito. Fiz muitos cursos, participei de dezenas de seminários e encontros sobre direção defensiva, agente multiplicador e outros, afirma Boaventura. Com o passar dos anos, ele foi se aperfeiçoando e produzindo materiais didáticos, como slides, transparências e cartazes usados durante as palestras, que duram entre 30 e 90 minutos, dependendo da idade dos estudantes e da receptividade.
Na busca de agradar sempre mais o seu público, o soldado-professor de trânsito compôs letra e música de duas canções que falam sobre a importância do respeito à sinalização e outros cuidados necessários no dia-a-dia do trânsito urbano. As músicas são cantadas pelo soldado Tanan - como é mais conhecido nas escolas da Cidade - , que toca violão e acaba, invariavelmente, sendo aplaudido pelas crianças ao fim de cada palestra. Às vezes, até me acho um artista, comenta orgulhoso.
A agenda de palestras de Pedro Tanan Boaventura, organizada a partir de pedidos ao 5º Batalhão da PM, está sempre cheia e com programação para as próximas semanas. Normalmente, elas acontecem em número de cinco ou seis por dia; nos três períodos em que funcionam as escolas municipais e estaduais. Ele calcula que mais de 40 mil estudantes já assistiram às suas palestras, e diz não se sentir cansado com a maratona. O contato com alunos e professores é sempre muito gratificante e prazeroso. É muito bom poder ser aplaudido e abraçado pelas crianças. Gosto demais do que faço, e como sou bastante sensível às vezes acabo chorando ao final de cada encontro com os estudantes.
Ele se utiliza também de recursos teatrais para passar aos alunos a mensagem de que é necessário mais seriedade no trânsito, tanto por parte dos pedestres, dos ciclistas, quanto dos motoristas de automóveis. Pode parecer que não, pelo ritmo frenético do trânsito atual, mas tenho certeza de que a longo prazo as palestras educativas são o único caminho viável para solucionar o problema. Só com pessoas mais conscientizadas é que poderemos melhorar a qualidade do trânsito em nossas cidades, afirma Pedro Boaventura.
De acordo com ele, as crianças vão se identificando com as placas, com a sinalização, com o que é certo e errado, e passam a fiscalizar os próprios pais no trânsito. Este é o início para sairmos deste caos em que nos encontramos hoje em dia. E eu sinto que as palestras dão retorno, resultados imediatos. Além disto, é importante não formarmos só bons motoristas, mas também pessoas inteligentes, educadas, íntegras e felizes. E isto, só podemos alcançar através da educação.Marcos BorgesLição de artistaPrimeiro educador do trânsito de Londrina, soldado Tanan se sente realizado junto de estudantesOsmani Costa





