Especial para a Folha
A Polícia Federal, que investiga o sumiço de farelo de soja do Porto de Paranaguá, acredita que só este ano foram desviadas duas mil toneladas do produto, correspondente a R$ 1 milhão. O esquema tornou-se público esta semana depois da denúncia de um comandante de navio caribenho, mas a polícia já sabia do desvio e está investigando desde o ano passado mais de 300 casos.
O comandante do navio Bovec, Zeljco Mlacic, denunciou a falta de 165 toneladas do produto, que seria levado para a França e Espanha. Esse volume seria o suficiente para encher 22 carretas. ‘‘Não é possível que tudo isso tenha sido comido por pombos’’, ironiza o delegado José Augusto Mello Chueri, responsável pelas investigações. Segundo a PF, o desvio está sendo praticado há mais de um ano. Só em 98 sumiram do Porto de Paranaguá quase 20 mil toneladas de farelo de soja, quantidade que pode ser vendida no mercado a R$ 5 milhões. Esse volume foi calculado em perícias da Receita Federal, que constatou quantidade embarcada inferior ao previsto para exportação.
O volume desviado parece pequeno perto do movimento total de soja no porto. No ano passado foram exportadas 4,176 milhões de toneladas e só este ano já saíram de Paranaguá 2,152 milhões de toneladas de soja. A fraude pode ter sido feita por funcionários do pool de operadoras portuárias, que atuam junto ao corredor de exportação do estado. Elas recebem a soja, armazenam nos silos e embarcam o produto nos navios. O trabalho dessas empresas é coordenado pela administração do porto.
A entrada e saída da soja nos terminais é controlada através de balanças, que registram os volumes no computador. Uma das hipóteses para a realização dos desvios, é que as balanças tenham sido adulteradas, já o registro nas balanças não confere com a quantidade embarcada. A soja retida pode estar sendo vendida no mercado interno, clandestinamente e sem tributação, ou exportada através de documentos falsos de uma empresa ‘‘laranja’’. A PF não acredita que exista uma quadrilha internacional agindo em Paranaguá. ‘‘O desvio está sujando o nome do porto no exterior. A má fama do terminal pode levar os compradores a evitar o porto de Paranaguᒒ, diz o delegado.
Os maiores prejudicados com a fraude são os compradores, que pagam por mercadoria não recebida. A polícia está investigando o envolvimento de funcionários das operadoras e os responsáveis podem ser enquadrados nos crimes de estelionato, sonegação fiscal, contrabando e formação de quadrilha. Também estão no alvo da PF empresas de outros setores, como téxteis, que estão exportando soja.
A administração do porto divulgou nota oficial informando que está investindo na melhoria do sistema de controle e lamenta que essas ocorrências venham contribuir para denegrir a imagem internacional de Paranaguá. Também registra que está colaborando para que a Polícia Federal esclareça o caso. ‘‘A Administração do Porto mantém um sistema de pesagem em suas balanças, devidamente aferidas pelo Instituto de Pesos e Medidas, assim como possui diversas formas de controle das mercadorias a serem exportadas em seu terminal, na maioria devidamente informatizadas’’, diz a nota. Ontem pela manhã, os operadores foram convocados para uma reunião com os diretores do porto para debater o assunto.

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