SOCORRO - O dia a dia dos atendentes de emergência
PUBLICAÇÃO
terça-feira, 15 de março de 2011
Davi Baldussi <br> Reportagem Local 
-Emergência
-Oi tio, tá pegando fogo na tulha.
-Tulha aonde, filha? Tem algum adulto perto de você?
- A vovó.
- Chama a vovó então, amor.
- Mas a vovó tá tentando apagar a tulha.
O diálogo acima aconteceu entre o sargento do Corpo de Bombeiros Eder Fernando de Oliveira e uma garotinha de cinco anos. No primeiro momento, Oliveira desconfiou que a ligação fosse um trote, a menina nem sequer informou corretamente o endereço do suposto incêndio e ''falava tranquilamente'', segundo ele, que também é socorrista do Siate.
Mesmo em dúvida sargento Oliveira decidiu confiar nas informações da garotinha e encaminhou um caminhão dos bombeiros até o local. ''Foram necessários 1,8 mil litros de água para apagar o fogo numa tulha de café'', recorda.
Por causa da grande quantidade de trotes que os atendentes do 193 recebem diariamente, sargento Oliveira por pouco não descartou o pedido de socorro da garotinha. Segundo ele, não existe uma estatística da quantidade de ligações que os bombeiros atende diariamente, muito menos a de trotes. Além dos Bombeiros, a Polícia Militar (190) e também a Guarda Municipal (153) apontaram como principal vilão os trotes.
Durante uma hora a reportagem registrou os toques dos três telefones de emergência da sede dos Bombeiros. Foram 25 ligações, e desse montante apenas três tinham relação com ocorrências de acidente: um garoto com perna quebrada, um senhor que caiu de um telhado e uma criança com anel preso no dedo. O restante abrangia trotes e pedidos inoportunos de ''socorro'', por exemplo: instruções para recarregar um celular.
Oliveira definiu o dia em que a reportagem acompanhou seu trabalho como tranquilo. ''Hoje não aconteceu nenhuma ocorrência grave. Quando aparecem casos assim o telefone não para. Porque diferentes testemunhas passam em frente a um incêndio, por exemplo, e ligam para gente.''
Em Londrina são quatro turnos de atendentes de ligações de emergência. Oliveira e o subtenente Anderson Batista formam uma das duplas que trabalham ao lado do telefone. ''Nós entramos às 8 hrs e ficamos até as 18 horas; aí entra um novo turno, que fica até as 8 horas. Amanhã a gente vai pegar esse turno que trabalha a noite e depois nós temos folga de dois dias'', explicou Oliveira.
Nos horários noturnos não é raro os bombeiros receberem ligações de mulheres, e até de homens, carentes emocionalmente. ''Mas caiu muito o número desses casos porque hoje todas as ligações são gravadas. Quando isso acontece nós já avisamos que a ligação está sendo gravada e que existem consequências para quem liga a um telefone de emergência à toa.''
Outro problema que os atendentes do 193 percebem é o exagero de alguns casos. ''A pessoa levou um tombo e torceu o dedinho. Esse não é um caso para chamar o Siate, que deveria atender acidentes mais sérios. Mas como a pessoa exagera no telefone, nós acabamos indo'', observa. ''E tem aquelas pessoas que tem plano de saúde, que inclui ambulância, e mesmo assim chamam o Siate. Aí nos deslocamos ao local, começamos o atendimento e em seguida a ambulância do plano da pessoa também chega lá. É um desperdício'', resume.


