Os chamados ‘‘tempos modernos’’, com a globalização e os processos tecnológicos, ao mesmo tempo em que se perdem valores éticos e morais, estão transformando a sociedade civil formada por indivíduos em ‘‘sociedade anônima’’, na qual direitos humanos e cidadania não são considerados. O conceito é do chileno naturalizado espanhol Marcos Roitman Rosenmann, professor universitário em Madri (Espanha). Ele participou de conferência sobre o tema ‘‘A Proteção Internacional dos Direitos Humanos’’ na noite de anteontem para um auditório lotado, no câmpus de Cascavel da Universidade Estadual do Oeste do Paraná (Unioeste).
Roitman é doutor em sociologia, de cuja cadeira é titular na Universidade Complutense de Madri. Ele foi exilado de seu país durante o regime do general Augusto Pinochet (1973-1989). Hoje é um dos denunciantes no processo para extradição do ditador, no final do ano passado, que resultou em sua prisão temporária em Londres (Inglaterra). A conferência em Cascavel foi iniciativa do Clube dos Advogados, com apoio da Unioeste e da faculdade particular Univel. Roitman já falou em várias cidades do Estado e deveria completar o roteiro ontem à noite em Curitiba, na Universidade Federal do Paraná.
Falando a 600 pessoas, o professor disse que direitos humanos e cidadania são ‘‘produtos descartáveis para a sociedade moderna’’ e que ‘‘a escravidão é hoje maior que no século 18, mas a mídia não mostra a extensão e como não aparece na televisão, é como se não existisse’’. Roitman citou que, no Brasil, mais de três mil crianças trabalham na indústria de resinas, matéria-prima para multinacionais. Estas indústrias produzem, em vários países, artigos com mão-de-obra infantil e paga com salários insignificantes. ‘‘E nós compramos as marcas famosas, alimentando a escravidão’’.
Roitman acrescentou que o FMI (Fundo Monetário Internacional) e outros organismos que controlam a economia mundial disseminam políticas que consideram pobres como ‘‘merecedores de salário que permitam apenas o mínimo de calorias para que possam ofertar mão-de-obra’’, sem contemplar suas demais necessidades. Ele criticou os que fazem de conta que defendem direitos humanos e cidadania - ‘‘como governos europeus e dos EUA, mas bombardeiam civis na Sérvia’’. Também mencionou a atriz Brigite Bardot, ‘‘que dizia defender as focas mas fez campanha pelo neofascismo na França e demonstrou repulsa aos negros imigrantes, ao dizer que o lugar deles é na África, não em seu país’’.
Para Roitman, a perda de valores éticos é consequência da falta de consciência crítica das pessoas que, hoje, ‘‘ao invés de pensar, são estimuladas a ficar na frente da tevê ou da Internet, que pensam por elas e lhes dão ordens’’. A escolas são voltadas ‘‘para a parte técnica, para o mercado de trabalho, não para o humanismo’’, por isso não contribuem para ‘‘gerar consciências’’.
Dirigindo-se a um público formado basicamente por jovens universitários, disse que quem faz a faculdade não pensa em contribuir para o avanço social da humanidade. ‘‘Quem faz, por exemplo, medicina ou direito, não pensa em saúde ou justiça, mas em se formar e ganhar dinheiro em cima de doentes ou dos injustiçados’’.

mockup