É mais fácil e cômodo reclamar que a programação da TV é uma porcaria do que tomar uma atitude. Afinal, se os meios de comunicação influenciam o comportamento das pessoas, eles também sofrem influência da sociedade. Com essa teoria a médica hebiatra Lígia Nóbrega Reato falou ontem, em Londrina, sobre ''Adolescente e Mídia'', no último dia do 2º Congresso de Adolescência do Cone Sul.
Lígia é presidente do Departamento de Adolescentes da Sociedade de Pediatria de São Paulo e coordenadora do Instituto de Hebiatria da Faculdade de Medicina do ABC. ''A televisão não é unilateral. Retrata os padrões e modelos culturais vigentes. Não atua num vazio cultural nem pertence aos adolescentes. É um instrumento do mundo adulto'', diz a médica.
Ela falou que os pais e mães precisam resgatar o papel e o direito na formação dos filhos. Isso significa impor limites sobre as horas que os filhos passam diante da TV, além de conversar sobre o conteúdo da programação. ''Não adianta proibir. Tem que oferecer outras alternativas para as crianças e adolescentes e acompanhar o que eles assistem.''
Segundo a médica, pesquisas indicam apenas o tempo das pessoas diante dos meios de comunicação, sem analisar que tipo de influência eles exercem. ''Os estímulos chegam. Se não, as empresas não investiriam milhões de dólares em publicidade. Investem porque há retorno.''
A médica citou uma pesquisa feita com adolescentes de uma escola pública da região do ABC que mostra que os meios de comunicação são a principal fonte de informação deles sobre sexo. ''Os serviços de saúde apareceram em último lugar.''
Ela diz que a família e a escola se omitem sobre o assunto. Segundo Lígia, antigamente os pais não falavam sobre sexualidade por medo de estimular os filhos ao sexo. Depois, deixaram essa tarefa para a escola, que fala de uma maneira muito técnica, com o foco na reprodução e na prevenção de doenças. O prazer fica por conta do que a TV mostra.
A mídia reforça o pensamento mágico dos adolescentes que acham que nada vai acontecer com eles. Quando uma adolescente engravida na TV lembra a médica aparecem vários pais querendo assumir. E todos lindos.
Segundo ela, os pais têm experiências de vida e valores humanos para passar para os filhos. Isso independe de classe social. ''Os meios de comunicação têm o papel de passar informações. Se são distorcidas, cabe à sociedade pressionar por mudanças. A mídia quer responder às expectativas dos telespectadores. Se elas mudarem, a mídia muda. É demais esperar que as redes de televisão se reúnam e decidam mudar por estarem preocupadas com a formação dos jovens.''

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