Sociedade machista e sexista
Londrina - "Vivemos em uma sociedade muito machista e sexista. Certamente, ao culpabilizar a vítima há uma tentativa de encontrar uma justificativa que preserva a ideia de que os homens estão submetidos a um tipo de instinto sexual. É como se os homens estivessem presos ao plano da natureza. As pessoas que argumentam nessa linha têm a impressão de que os homens não passam por processos de sociabilização, civilizatório e, então, cabe às mulheres se cuidarem", declara Silvana Mariano, doutora em Sociologia.
Em relação aos comentários na rede social e no portal Bonde, a avaliação de Silvana é que existe uma certa tolerância com grupos sociais dominantes. Em algumas postagens, internautas afirmavam que o jovem condenado por estupro estava sendo vítima de "preconceituosos" pelo fato dele ser rico. "Compreendemos e toleramos mais o comportamento das elites e somos muito severos com as classes populares. Quem está em uma posição de dominação conta com a aceitação social muito maior", completa.
Já no que se refere às opiniões femininas em defesa do jovem acusado, Silvana explica que homens e mulheres compartilham um mesmo espaço social e cultural e, portanto, se o sistema é machista e patriarcal, ambos carregam esses valores consigo.
Para a socióloga, se fizermos uma comparação de um século, podemos afirmar que a percepção e o comportamento da sociedade mudaram bastante, mas em um ritmo mais lento do que o desejável. "Nossas instituições precisam ser reformadas, democratizadas. Por exemplo, as grades curriculares dos cursos, desde a educação básica ao ensino superior, pouco tratam da desigualdade de gênero, da violência contra a mulher e as implicações sociais, econômicas e políticas que isso produz", comenta.
Ela ainda acrescenta que é preciso tomar cuidado ao falar da importância da mudança cultural porque corre-se o risco de colocar a responsabilidade em um plano onde ninguém é responsável.
Nesse sentido, vale destacar que a mudança também parte da sociedade como um todo e de cada um, nos espaços de atuação. "Há uma distância entre a declaração das pessoas com a prática. Se por um lado há um certa consciência social de que a violência contra a mulher é ética e moralmente condenável, por outro, não aprendemos ainda outras formas de lidar com conflitos, de lidar com tensões, sem cair na violência", ressalta. (M.O.)





