Um tiro foi suficiente para mudar a vida de Rodrigo Andrade Decioli, de 25 anos. Em novembro do ano passado, quando ele estava em frente à casa da antiga namorada no Jardim Leonor, na Zona Oeste de Londrina, ele foi alvo de alguns adolescentes. ''Eu me lembro que estava sentado com o filho da minha namorada, quando cinco pessoas em um carro pararam e começaram a atirar nele'', recorda.
O adolescente Maike Rainer dos Santos Costa, de 17 anos, filho da ex-namorada de Decioli, foi atingido por sete tiros e não sobreviveu. Já Decioli levou um tiro próximo ao ouvido, que atingiu um nervo da face e comprometeu os músculos de expressão. ''Ele perdeu a audição do ouvido direito e tem uma diferenciação do gosto. Como se fosse ferrugem'', explicou a estudante de fisioterapia, Keila Feijó da Costa, que atende Decioli, sob a supervisão de uma professora, do Centro Universitário Filadélfia (Unifil).
Assim como ele, outros tantos jovens vítimas da violência têm o resto de suas vidas mudado por uma bala. Segundo último levantamento do Corpo de Bombeiros de Londrina, desde o dia 1 de janeiro de 2005 até 8 de abril foram registradas 89 vítimas de arma de fogo, das quais 31 morreram. O número de mortos representa 67% de todos os homicídios ocorridos em Londrina no mesmo período.
O ambulatório de lesão medular do Hospital Universitário (HU) trata cerca de 60 pessoas. ''Temos uma fila de espera grande, porque tem paciente que atendemos há mais de 18 anos e não sabemos quando vai poder parar o tratamento'', explicou o supervisor do ambulatório, Roger Burgo de Souza. Ali, estudantes e professores de fisioterapia tentam ajudar o paciente a se adaptar à sua nova realidade.
A casa e o carro do ex-auxiliar administrativo Saul dos Santos, de 41 anos, foram totalmente modificados. ''Eu mesmo percebia do que precisava e ia mudando. Hoje, todos os banheiros possuem vasos da altura necessária e as camas são todas baixas. Na minha casa eu ando de um lado para outro sem problema'', afirma Santos, que já não se incomoda com os olhares das pessoas quando ele passa em sua cadeira de rodas.
O ex-auxiliar perdeu todos os movimentos do peito para baixo e teve que aprender a se virar com os braços e mãos. A tentativa de homicídio contra Santos ocorreu em 1996, quando ele foi atingido por três disparos de arma de fogo.
Dos 60 pacientes atendidos semanalmente no HU, oito são vítimas de arma de fogo e não têm previsão de quando poderão receber alta. Além do atendimento médico, os profissionais do ambulatório ajudam os pacientes no que podem. O próprio Santos teve seu carro adaptado para que pudesse dirigir. ''Normalmente esta adaptação custa R$ 2.500,00'', conta Souza, que conseguiu o serviço por R$ 250,00.
Segundo dados da Secretaria Estadual de Saúde, só no HU de Londrina são gastos, anualmente, R$ 1 milhão com o tratamento de pessoas baleadas. Só este ano o Siate encaminhou 18 baleados para o HU. No ano passado o hospital recebeu 154 pessoas vítimas de arma de fogo.

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