Dentre a infinidade de histórias tristes e trágicas envolvendo meninos e meninas de rua no Brasil, é possível garimpar exemplos de superação. São pequenos sinais que mostram que a vida, mesmo sob condições adversas, ainda pode ser vivida com dignidade. Nesta reportagem, a Folha conta as histórias de dois jovens que se conheceram vivendo nas ruas do centro de Londrina, mas hoje têm família e alcançaram o respeito dos colegas de trabalho.
Ana Patrícia de Andrade, 27 anos, e Ricardo Batista da Cruz, 23 anos, saíram de casa por motivos diferentes, a primeira por ter uma mãe ausente e o segundo porque queria mais liberdade. Nas ruas, acabaram sucumbindo ao perigo das drogas, tiveram que furtar e roubar para conseguir dinheiro mas, por suas próprias forças, reverteram as dificuldades. Os dois agradecem o apoio que receberam de programas oficiais mas reclamam que essa assistência não pode estar ligada apenas a um mandato político. Eles ensinam que é preciso existir continuidade nessas políticas.
Quem trabalha com menores de rua sabe que a volta para casa é difícil de ser alcançada. O conselheiro Márcio Antunes, que trabalha há dez anos com crianças e adolescentes em situação de risco social, diz que a troca acontece porque a rua se mostra melhor do que a vida em família. A recuperação é um processo lento e complicado.
Nas ruas, esses meninos e meninas acabam formando uma espécie de segunda família, onde todos se ajudam. ''Quem tenta tirá-los das ruas é encarado como mau e o processo de criação de vínculo é bastante demorado'', explica Antunes. Só com o tempo e depois de muita insistência que a confiança começa a ser conquistada. ''Nas primeiras abordagens, a recusa é total'', revela Antunes.
Para o conselheiro, o problema do menor de rua deve ser entendido e abordado sob vários aspectos. Além da pobreza, desestruturação familiar e da dependência às drogas, Antunes concorda que os programas de atendimento têm parcela de culpa pois muitos se mostram ineficientes no trato com o menor , assim como a sociedade, que entende que a questão é unicamente um dever de Estado. Ele lembra que o Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA) pontua que as pessoas precisam ser responsáveis. ''Quem dá esmola no sinal precisa entender que está contribuindo para que aquela criança permaneça nas ruas'', citou o conselheiro.

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