Depois da rendição da Alemanha na Segunda Guerra Mundial, menos de 3 milhões dos quase 10 milhões de judeus que moravam na Europa estavam vivos. Muitos deles saíram debilitados dos campos de concentração e de trabalho, fugindo do extermínio para viver em um outro lugar. A maioria migrou para os EUA e Israel. Uma pequena parcela (menos de 1%) mudou-se para o Brasil. Um número ainda menor veio para Curitiba. Entre eles, o comerciante polonês Joel Bergman.
Joel sentiu o terror do nazismo. Ele perdeu quase toda a família, reencontrando apenas o irmão, no fim da guerra. Depois de passar por campos de concentração e trabalho - inclusive Auschwitz -, ele diz não ter ódio de quem lhe fez mal. ‘‘Deus passou uma grande lição à humanidade: sem respeito e amor ao próximo o homem se torna um animal’’, afirma. A seguir, Joel conta como sobreviveu ao holocausto.
‘‘Nasci em 1923, na cidade industrial de Pabianice, na Polônia. Era o filho do meio de um lindo casal, assalariados da classe média baixa, que tiveram seis crianças - três homens e três mulheres. Religiosos, eles me educaram como um judeu típico da Europa Oriental. Por isso, vestia-me diferente dos poloneses, com cachos sobre as orelhas, chapéu e roupa escura. Nesta época, apesar de algumas atitudes anti-semitas de poucos poloneses, nossa vida era boa.
Os tempos bons duraram até 1939, quando a Polônia foi ocupada pelos nazistas. De repente, nossas casas passaram a ser depredadas, meus irmãos agredidos, todos desprezados. Alguns de nós foram embora, mas quem fazia isto eram os que tinham algum dinheiro para fugir. Minha família ficou, sendo levada para um campo de trabalho, na fronteira da Alemanha com a Polônia. Pouco a pouco foram nos separando. Eu fiquei sozinho, com 16 anos, num campo de trabalho só para homens.
Eram dias difíceis. Trabalhava 12 horas por dia, sem comida, sem rémedio, sem abrigo ou roupa. Se fazia frio, tremíamos gelados. Com os passar dos dias, quem não tinha resistência ia morrendo. Todos os dias de manhã, perto das barracas dos judeus, pilhas de corpos, que pareciam lenhas cortadas, eram retiradas das barracas, para depois serem enterradas. Por dia, morriam oito pessoas em meu alojamento.
A morte vinha pela fome ou pela violência. Tinha vez que os nazistas e, às vezes poloneses colaboracionistas, matavam um judeu apenas para se divertir. Eles jogavam nosso chapéu no chão e quando a pessoa ia pegar levava chumbo nas costas. Todos tinham medo de morrer. Mas também havia esperança de que amanhã seríamos libertados. Por isso continuávamos resistindo.
No período em que estávamos presos, a vontade de viver ia acabando. Sem saber nada do mundo, sem saber que dia era, não podíamos preservar nossas tradições. As rezas eram esquecidas. Apenas uma vez um judeu húngaro lembrou que era o Yom Kipur (Dia do Perdão) e alguns rezaram. A reza individual me sustentou e sustenta até hoje.
Passei por três campos de concentração e extermínio e cinco campos de trabalho. Foi em Auschwitz que fui tatuado. Parecia que todos eram animais. Na época era difícil entender o ódio dos alemães, já que não roubamos e não matamos ninguém. Via morrer amigo todos os dias. Alguns acordavam com um corpo ao lado, que depois era posto na porta.
Fui libertado por uma tropa norte-americana. Um major judeu nos deu comida. Chorei muito quando comi bem. Depois da guerra, saí para procurar meus parentes. Corria de cidade em cidade, vendo as listas de sobreviventes da Cruz Vermelha. Soube apenas que meu irmão estava vivo, em Berlim. Quando o vi, ele estava bem fraco, pois tinha trabalho em minas de carvão polonesas.
Estou contando esta história porque é preciso lembrar a todos os horrores do holocausto. Ninguém pode achar que não aconteceu, porque senão tudo pode se repetir. Todos devem ver os horrores nazistas com desprezo. Da mesma forma todos devem agir frente à maldade do homem. Ela vem se repetindo de forma pequena em Camboja, Vietnã, Iuguslávia, na miséria da África e do Brasil. Por isso, a gente precisa apreender a viver em paz.
Sou otimista com as pessoas, assim acredito que a vida deve melhorar cada vez mais. Não guardo raiva dos alemães, nem dos poloneses que lutaram junto com eles. Afinal, havia alemães que nos ajudaram dentro do campo. Em toda parte tem gente ruim e boa, mas é preciso que se valorizem as pessoas boas. O importante é ter respeito à humanidade, respeitar o outro, seja ele judeu, cigano, polonês ou árabe.
Deus fez o holocausto e sabe porque colocou o judeu nesta situação. Acho que Ele passou uma grande lição à humanidade, que mostra que sem respeito e amor ao próximo o homem se torna um animal’’.

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