SOBREVIDA - Transtornos psíquicos são mais frequentes
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terça-feira, 11 de abril de 2017
Carolina Avansini<br>Reportagem Local 
Jaguapitã - Rosemari, a mulher de 62 anos que convive com HIV há mais de três décadas, vive hoje no Recanto Amigo Casa de Apoio para Pacientes Vivendo com HIV e Aids, em Jaguapitã (Região Metropolitana de Londrina), uma instituição mantida pela Casa de Maria de Londrina. A casa abriga 62 pacientes que não mantêm vínculos familiares e por isso vivem no local, sendo 58 deles portadores de HIV. A idade dos moradores varia de 30 a mais de 60 anos. Confusão mental, demência e a atrofia dos membros provocada pela neurotoxoplasmose são alguns dos sintomas observados em vários deles, conforme relatam o coordenador Alexssander Bezerra da Silva e o assistente social Sérgio de Alencar.
"Percebemos que os transtornos psíquicos começam a se tornar frequentes em pacientes que estão há muito tempo em tratamento", relatam eles, que atendem desde pessoas que conseguem viver com qualidade de vida até aqueles muito adoecidos. "Temos moradores que estão aqui há mais de 15 anos e que conseguiram recuperar a saúde e a autoestima", conta Silva, que observa menos pessoas adoecendo de Aids, mas um aumento na convivência com as consequências do tratamento. "Os transtornos mentais, por exemplo, são um novo desafio", acredita.
Alencar destaca que outro desafio é a reinserção social dos pacientes. Muitos recuperam a saúde, voltam para as ruas, param o tratamento e adoecem novamente. "Lidar com pacientes na fase inicial é tranquilo, o mais complicado é quando começam a envelhecer", diz, destacando que a própria rede de atendimento não está pronta para lidar com essa fase da vida dos portadores. "Devia haver um programa específico, com capacitação para os profissionais que atuam com esse público", pede.
SUPERAÇÃO
Rosemari, moradora do Recanto Amigo, já começa a sentir os efeitos do HIV. "Percebo que estou esquecida e minhas pernas doem, quase não consigo caminhar", conta ela, que se contaminou aos 28 anos, na década de 1980, em Santos (SP), possivelmente na primeira vez que compartilhou uma seringa. "Eu gostava de fumar maconha e fui buscar a droga na casa de uma prima. Ela e os amigos estavam usando droga injetável e me ofereceram, eu nem sabia como aplicar", conta.
Pouco tempo depois, ela viu toda aquela turma morrer da doença desconhecida que contaminou inclusive artistas como Cazuza e Renato Russo. Ao pegar uma gripe muito forte, insistiu com a médica que a atendeu no hospital para fazer o exame que levou 45 dias para ficar pronto. "Naquela época não tinha tratamento, nem nada. Eles me disseram para me cuidar para conseguir viver mais alguns anos", recorda.
Mãe de cinco filhos, o primeiro nascido quando ela tinha apenas 14 anos, a jovem mulher se viciou em drogas depois da experiência com a prima. Nunca mais compartilhou seringas, entretanto, porque trabalhava, gostava de praia e cinema e sempre preferiu "se aplicar" sozinha. Ao receber o diagnóstico, reduziu o uso de entorpecentes para tentar viver bem os cinco anos de vida que possivelmente lhe restavam.
Uma tragédia, porém, abalou todos os planos de redução de danos. Os filhos, que sempre viveram com o pai, morreram todos. Um deles de derrame e os outros quatro de uma só vez, em um acidente automobilístico que levou também o ex-marido.
"Foi depois disso que me afundei totalmente nas drogas", conta.
Depois de perder os filhos, Rosemari chegou a viver na rua, onde bebia e usava crack. Até 2007, não fez qualquer exame ou se submeteu a tratamentos para conter o vírus. "Sou um milagre", reconhece ela, que deixou as ruas em 2004 quando foi resgatada por um grupo da irmandade Toca de Assis.
Foi na organização religiosa onde viveu no interior de São Paulo que ela recuperou a autoestima e passou a se submeter ao tratamento. Enviada para a Toca de Assis em Londrina, acabou conseguindo uma vaga no Recanto Amigo, onde vive uma vida tranquila e comemora a cada dia a possibilidade de experimentar outro estilo de vida. "Não acho que tive sorte. Minha história só demonstra que a graça de Deus é maior que a nossa própria vontade", resume.

Após negação, pacientes buscam recuperação
O aposentado José Francisco Honorato, de 63 anos, descobriu ser portador do vírus HIV em 1999. Não sabe, porém, em que ano se contaminou. A principal suspeita é que tenha pego a doença de uma ex-companheira, com quem viveu por dez anos no litoral paulista e que morreu sem contar a ele que tinha o vírus. "Só fiquei sabendo depois da morte dela", diz ele, que lamenta o fato de não ter descoberto antes, o que poderia ter ajudado a evitar a atrofia nas pernas que o obriga a andar de muletas até hoje. "Ela mesma poderia ter vivido mais tempo se tivesse se tratado", acredita.
Apesar de já ter vivido nas ruas, Honorato conta que morou por 30 anos em Ubatuba, onde nasceu o único filho e aprendeu o ofício de roupeiro. "Trabalhei em hotéis e aprendi a lidar com lavanderia", conta ele, que hoje é responsável pela rouparia do Recanto Amigo. "Mantenho tudo organizado. Isso aqui é uma terapia", conta.

O aposentado negou a doença por muitos anos, mas, desde que chegou à casa de apoio em Jaguapitã em 2007, garante que realiza o tratamento corretamente, apesar de ter passado uma temporada de três meses nas ruas nesse período. "Conheci o crack depois de adulto, em 2012, por causa de uma pessoa com quem me relacionava. Fui encontrado no Marco Zero de Londrina sem conseguir andar, mas o pessoal da Casa de Maria me buscou. Não quero mais isso para a minha vida", afirma.
Ele, que chegou a tomar 27 comprimidos diários, hoje comemora a dose reduzida a três remédios e a boa saúde que permite inclusive que tenha momentos de lazer. "Tenho minha aposentadoria, compro roupas, calçados e às vezes como alguma coisa diferente", conta Honorato, que também faz uma poupança para comprar remédios que porventura venham a faltar no SUS. "Não é porque sou soropositivo que vou desistir", garante.
Marta de Oliveira, de 42, também vive no Recanto Amigo mas não conta com a mesma boa saúde. Apesar de mais jovem, já vive em uma cadeira de rodas por causa da atrofia dos membros provocada pela neurotoxoplasmose, uma doença que acomete portadores do HIV com o vírus não controlado. Durante um período em que esteve separada do pai dos dois filhos, Marta conta que ficou sem dinheiro e recorreu à prostituição para sobreviver. "Fiz programas com três homens diferentes e um deles tinha HIV", diz.
Em seguida, ela retomou o relacionamento com o marido e engravidou da filha caçula, que nasceu com HIV e hoje, aos 19 anos, também convive com o vírus. "Meu ex-marido não se contaminou, mas quando ela nasceu descobri que estava doente", diz ela, que desde então enfrenta as sequelas da doença e vive alternando temporadas em diferentes casas de apoio. Em Jaguapitã há um mês, ela garante que agora está conformada com o HIV e pretende se tratar. "Meus filhos estão com a avó e não precisam mais de mim, mas quero melhorar para ter uma vida melhor", planeja. (C.A.)


