Sob o regime do medo
PUBLICAÇÃO
quinta-feira, 06 de novembro de 2003
Luciano Augusto<br>Reportagem Local 
Morar nos bairros carentes das grandes cidades pode trazer muito mais implicações negativas do que apenas as dificuldades típicas provocadas pelo abandono do poder público. Em Londrina, além dos problemas do dia-a-dia, muitas famílias que residem nesses endereços têm sido obrigadas a fugir e abandonar suas casas, acuadas pelo medo imposto pelos marginais. O temor é tamanho que praticamente inexistem denúncias contra esse tipo de crime tanto na polícia quanto na Justiça.
Em outubro, a Folha reportou dois desses casos. No dia 17, uma família inteira fugiu do Jardim Leste-Oeste (Zona Oeste) e abandonou as sete casas que possuiam no bairro. Ao todo, 22 pessoas deixaram suas residências depois que uma gangue do local suspeitou que um membro da família tinha delatado um integrante do grupo, preso pela polícia um dia antes. Na madrugada do dia 25 de outubro, um casal residente na Vila Santa Terezinha (Zona Leste) foi praticamente resgatado por policiais depois de viver os últimos três meses confinado todas as noites em sua própria casa, enquanto o quintal da residência era usado como ponto de venda de droga. No local, nove pessoas foram presas.
O problema, que voltou à tona agora, é bastante conhecido. Entre o ano passado e este ano, a Folha publicou diversas matérias relatando casos de famílias que estavam sendo ameaçadas por marginais e sendo expulsas de suas casas. Isso acontece, com maior freqüência, em bairros da Zona Oeste.
O delegado-operacional da 10ª Subdivisão Policial, Pedro Maomé Machado, atuou nos dois casos citados e comentou que esse tipo de ocorrência é de difícil solução porque o medo faz com que muitas vítimas não denunciem a coação e a ameaça que sofrem. A principal arma dos marginais é o medo, pois assim eles se sentem tranqüilos para agir, apontou. Para o delegado, o melhor caminho é a denúncia. Sem o relato da vítima, a polícia não pode agir com eficiência já que é difícil flagrar os suspeitos cometendo o crime. Presos, eles estão sujeitos a responderem por ameaça, cárcere privado, constrangimento ilegal, entre outros delitos.
A falta da denúncia formal também restringe a atuação do Centro de Direitos Humanos (CDH), conforme apontou o coordenador da entidade em Londrina, Gelson Gil. De acordo com ele, o CDH local ainda não recebeu nenhum caso desse tipo até o momento. Gil explicou que o Centro encaminha o relato para as autoridades competentes e acompanha o andamento do caso. Quando todos se calam, quem comete a ilegalidade ganha força, afirmou.
E se o crime raramente é denunciado, a Justiça também fica de mãos atadas. A promotora da 2ª Vara Criminal do Fórum de Londrina, Siomara Nogari, lamentou que até mesmo os casos que chegam à Justiça são difíceis de serem apurados, por causa da recusa das vítimas em confirmar as agressões. Ela lembrou de uma situação onde cerca de 100 pessoas foram chamadas para testemunhar contra um rapaz que estaria ameaçando moradores e todos negaram que tivessem sido vítimas. Siomara garantiu, porém, que todos os casos são apurados e os culpados punidos.
Para a promotora, a escassez de denúncias dessa natureza não significa que o Estado não esteja agindo nem pecando nas garantias dadas aos moradores ameaçados. Por mais que se tome medidas, não se consegue conter esse tipo de crime, onde o grande responsável é a droga (considerando seu uso e distribuição), concluiu.
COMO DENUNCIAR (*)
Disque-denúncia da Polícia Civil ligue 147
Disque-denúncia da Polícia Militar ligue 161
Disque-denúncia do Centro de Direitos Humanos 3356-0033 ou rua Rio Grande do Norte, 1058, fundos, centro.
(*) O denunciante não precisa se identificar


