Paulo WolfangImagine no JamaicaMoradores do Residencial Jamaica 2: sem condições de pagar mensalidades de R$ 800 e sem negociaçãoPrestações de R$ 800 e um saldo devedor de R$ 60 mil. Tudo isso para um apartamento que no mercado imobiliário de Londrina vale aproximadamente R$ 15 mil. Essa situação tem revoltado os moradores do conjunto residencial Jamaica 2, no jardim Bandeirantes (zona oeste). Ontem à tarde eles organizaram uma manifestação no próprio conjunto e cobraram da Caixa Econômica Federal uma saída para o impasse. Muitos deles, informa a síndica Lourdes Benedita Freitas, não têm como pagar as prestações e já foram comunicados que terão que desocupar o imóvel.
O residencial Jamaica 2 foi inaugurado em 1991 com 12 blocos (três andares cada um), totalizando 192 apartamentos de dois e três quartos. Os problemas começaram alguns meses depois que foi inaugurado, quando as prestações começaram a subir muito: alguns moradores entraram na Justiça contra os valores e ganharam o direito de pagar em juízo. Mas a liminar logo foi cassada e, sem condições de pagar prestações, muitos moradores simplesmente deixaram de pagá-las na esperança de resolver o caso novamente na Justiça.
‘‘Se eles colocassem as prestações em R$ 150, R$ 200, a gente pagaria. Mas do jeito que está não dᒒ, reclama outra moradora, Rosa Neide Lopes Ferreira. Segundo ela, quando tentam negociar com a Caixa, é proposto primeiro pagar o saldo devedor, que gira em torno dos R$ 60 mil, para depois refinanciar o restante.
‘‘O pior é que que eles falam que se a gente entregar o imóvel, sem acertar a situação, o nome da gente fica sujo na praça por cinco anos’’, diz a moradora. E o que mais revolta, ela afirma, é que a Caixa pretende vender em leilão o imóvel pelo preço do mercado depois de retomá-lo. ‘‘Eles querem pôr a gente na rua para depois vender para outro. E para a gente não têm acordo.’’

CEF diz que a
negociação é
difícil e pode
retomar imóveis


Rosa Ferreira lembra que, depois que foram proibidas de pagar em juízo, começaram a chegar as primeiras ordens de despejo. ‘‘A gente não está se recusando a pagar, mas não vai desocupar o imóvel porque não tem para onde ir’’, diz. ‘‘E se o juiz determinar que a gente tem que sair daqui, a gente vai acampar no quintal da casa dele’’.
O advogado Louriberto Gonçalves, especialista em Sistema Financeiro de Habitação e que defende os moradores, diz que vai entrar com agravo de instrumento contra a liminar do juiz substituto da 1ª Vara da Justiça Federal de Londrina. A liminar possibilitou que os mandados de despejo sejam executados. ‘‘Vou a Porto Alegre (RS), na Justiça Federal, pessoalmente para entrar com o recurso’’, destaca o advogado.
Gonçalves aponta ainda que a Caixa tem feito pressão junto aos mutuários para que eles desocupem logo os imóveis, inclusive com ameaças veladas na portaria do prédio. ‘‘Isso aí é meio terrorismo, pressão psicológica. E muitos moradores não têm condições de morar em outro lugar.’’
O advogado explica que, se a Justiça Federal acatar o recurso, o próximo passo será tentar judicialmente um acordo para que os contratos sejam reavaliados a partir dos valores reais do mercado. ‘‘Nada é mais justo, porque os moradores estão pagando os impostos e cuidando dos apartamentos.’’
O gerente Vladimir Carlos Berbert, do setor de habitação da Caixa Econômica Federal (agência Londrina), explica que os contratos de financiamento foram feitos na época segundo a capacidade de pagamento dos mutuários, ou seja, através do plano de equivalência salarial, com renda comprovada. ‘‘Agora, se a pessoa vendeu para terceiro ou perdeu renda a gente não tem como contornar.’’
A Caixa explica ainda que o prazo e os valores das prestações não cobrem nem os juros aplicados no financiamento, por isso a tendência é que o saldo devedor aumente consideravelmente. Outro fator é a própria desvalorização do imóvel além do mercado imobiliário, que sofreu deflação nos últimos anos.
‘‘O pedido de retomada do imóvel só é feito depois que todas as alternativas foram esgotadas’’, comenta o gerente. Ele lembra ainda que, em muitos casos, os mutuários têm até cinco anos sem pagar financiamento e que, nessa situação, fica muito difícil entrar em acordo. ‘‘Então a Caixa retoma o imóvel e depois repõe no mercado.’’

mockup