A Vara Maria da Penha conta com o trabalho voluntário de profissionais como a psicóloga Maria Cristina Alves Penha, que destina parte do seu tempo a emitir os laudos necessários aos processos ''Talvez por ter passado por uma situação difícil no casamento, me sensibilizei pelos casos atendidos e decidi fazer os laudos voluntariamente'', explicou
Por observação das histórias relatadas no dia a dia, ela afirmou que o rompimento do ciclo de violência contra mulheres não depende apenas na vontade das vítimas ''São pessoas dependentes, financeira e emocionalmente, que não conseguem sozinhas romper o vínculo É preciso haver um trabalho psicológico para que elas tomem consciência'', disse
Mãe de três filhos de 28, 12 e 6 anos, Sílvia (nome fictício), 49, tem uma história de vida que comprova a afirmação da psicóloga Com vida estabelecida em São Paulo, ela largou tudo e mudou-se para Londrina com o ex-marido que, durante 17 anos, submeteu-a a situações de violência psicológica e física
O relacionamento começou quando o filho mais velho era pequeno ''Demorei a perceber que ele era perturbado'', disse ela, que não tinha liberdade para andar sozinha ou fazer compras no supermercado ''Não tinha noção de que estava sendo submetida a tortura psicológica É o tipo de coisa que não imaginava possível de acontecer comigo'', afirmou
A situação piorou após o nascimento da segunda filha Quando a menina tinha quatro anos, chegou a segurar a mão do pai que desferia socos no rosto da mãe A compulsão pela bebida agravava o problema ''O pior é que, no dia seguinte, ele agia como se nada tivesse acontecido'', recorda
Da tomada de consciência à iniciativa de pedir a separação, foram muitos meses ''Sou sozinha em Londrina, não tenho trabalho e ninguém para me ajudar com meus filhos Não sabia como iria viver se o tirasse de casa'', contou Com apoio de uma psicóloga, Sílvia tomou a decisão e não se arrepende ''Hoje, sei que meu marido era violento porque eu tinha medo A lei existe para proteger as vítimas, só sofre quem quer ''
Com dificuldades em receber orientações jurídicas sobre o caso, ela acredita que, se tivesse sido atendida pela vara especializada Maria da Penha, poderia ter recebido informações que facilitassem a garantia dos direitos dela e dos filhos ''Não tinha dinheiro para pagar advogado, o que tornou tudo mais difícil Hoje, não tenho vida, continuo vivendo aqui por causa das crianças '' (C A )

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