“Uma menina muito prestativa, alegre e disposta, com um coração enorme de solidariedade. Com 14 anos, estava no início da vida”. As palavras são de Mary Kwapis, mãe de Julia Kwapis, que cursava o nono ano do ensino fundamental e planejava a comemoração de sua crisma quando se tornou uma das cinco vítimas fatais do tornado que assolou Rio Bonito do Iguaçu, no Centro-Sul paranaense, na noite da última sexta-feira (07).

A mãe contou que a ausência recente da caçula ainda a deixa sem palavras para falar sobre a tragédia, lembrando da boa relação que tinha com a filha. No dia do temporal, não estava ciente que a situação seria tão grave, com uma tempestade supercelular atingindo a cidade por volta das 18h. Na escola em que a professora trabalha, uma colega comentou sobre a previsão de temporal, mas não esperavam um tornado de categoria F3 na escala Fujita, com ventos estimados entre 300 km/h e 330 km/h.

“Quando eu cheguei em casa às 17h30, o tempo já estava se fechando, foi muito rápido, questão de minutos. Começou a cair galhos, árvores, arrancou a garagem, as coberturas da área, cozinha, sala, tudo”, recordou Kwapis. O prejuízo, ainda não calculado, foi grande, mas “é o de menos, o difícil é saber que a gente não vai mais ter a Julia aqui”.

Julia identificada após horas de busca

No momento do impacto, a adolescente estava na casa de uma amiga, com os parentes não conseguindo contatá-la. O pai da menina, Roberto, é funcionário público, e a irmã mais velha, Geovana, tem 17 anos.

Como “ninguém sabia dela”, Mary, Roberto e os padrinhos da jovem adentraram a madrugada procurando Julia, indo para Laranjeiras do Sul, cidade vizinha, pelo menos três vezes em busca de notícias. Quando o relógio alcançou 2h30, Mary recorreu ao Corpo de Bombeiros para pedir ajuda, repassando o número de Geovana, a única com sinal no telefone porque estava no município ao lado.

Já de manhã, um médico do Instituto São José, em Laranjeiras do Sul, ligou para Geovana e avisou que sua irmã mais nova estava no hospital. A menina teve “postura firme” ao avisar a mãe, dizendo que o profissional solicitou que a família toda fosse junta até a unidade. A jovem, acompanhada de amigos, brincou que o pai deveria ir na frente, visto que Mary “é muito pé de chumbo”.

“Chegando no hospital, o médico nos chamou no particular e falou ‘eu preciso que vocês sejam fortes, porque nós estamos com uma pessoa aqui sem identificação’. Ele foi falando algumas coisas e eu disse ‘é a Julia’, aí o Roberto falava, ‘não, não pode ser’, mas eu disse ‘Roberto, é a Julia, eu sinto que é a Julia’”, relembrou a mãe.

Descrevendo a vítima não identificada, o médico comentou sobre os brincos de argola e a unha em gel, o que reforçou ainda mais a certeza de Mary. “Quando eu tirei o lençol e olhei para ela, foi um dos piores dias da minha vida. Ela era uma menina muito linda, um rosto perfeito, parecia desenhado. Ela tinha um cabelo lindo, gostava de cuidar, era uma menina vaidosa”, recordou a professora.

Quando pai e mãe identificaram a adolescente, viram o rosto “desfigurado” da menina, com machucados por todo o corpo e um corte profundo no rosto, além de ferimentos graves no lábio, braço e na coxa.

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‘Abalados, chocados e tristes’

A crisma de Julia estava marcada para sábado (08), dia seguinte ao temporal, sendo que os padrinhos de nascimento que auxiliaram na busca haviam sido escolhidos pela menina para crismá-la. Em vez disso, no domingo (09), a família se reuniu não para celebrar, mas no velório coletivo promovido para as vítimas da tragédia.

Mary disse que todos os parentes estão “abalados, chocados e tristes”, especialmente ela, já que não vai mais acordar com os pedidos de “bênção” de sua “bebê”, como a descreveu por ser a filha mais nova. “É só o tempo para amenizar a nossa dor, nosso sofrimento”.

Vaquinha falsa

A mãe de Julia alertou para uma vaquinha online feita em nome dela em uma rede social, intitulada “Campanha Julia Kwapis”. O perfil promovendo a vaquinha já tem quase 100 mil seguidores, com o link para ajudar na biografia junto da frase “coração dilacerado”. Mary pede para que ninguém doe dinheiro na chave disponibilizada, pois a iniciativa é de um golpista.

'Situação pior do que se vê nos vídeos'

Andressa Leichtweis é natural de Rio Bonito do Iguaçu, e se mudou para Foz do Iguaçu (Oeste) para cursar Medicina. Assim que soube dos estragos que o tornado causou nas residências de seus familiares, retornou a sua cidade natal para ajudar. A mãe, irmã e duas cunhadas sofreram danos materiais extensivos, com gessos quebrados, coberturas que voaram e janelas e portas de vidro quebradas, além de móveis inutilizados porque ficaram encharcados. No momento, o “prejuízo é incalculável”.

Seu sobrinho estava na academia no momento do impacto e sofreu arranhões, já a mãe não estava em casa na hora, fato que Leichtweis agradeceu. “O prédio dela fica atrás do CERBI (Escola Municipal Rio Bonito do Iguaçu) e do Ginásio de Esportes, que ficou completamente destruído, e pelo estrago, acreditamos que ela poderia estar entre as vítimas se estivesse lá, pois mora em um dos pontos da cidade que mais foram afetados”.

Quem vê de fora não consegue ter a dimensão da tragédia, pontuou a estudante. “Se está aqui pessoalmente tem uma melhor ideia do tamanho do estrago. As pessoas perderam praticamente tudo, só uma parte muito pequena da cidade não foi atingida. É muito difícil porque você vê tudo misturado, ferro e fios com todos os pertences das pessoas, foi uma devastação muito grande”. Chorando, contou que a situação “está pior do que se vê nos vídeos”.

Andressa Leichtweis contou que está "há duas noites sem dormir e puxando entulho igual uma retroescavadeira"
Andressa Leichtweis contou que está "há duas noites sem dormir e puxando entulho igual uma retroescavadeira" | Foto: Andressa Leichtweis

‘Todo o povo de Rio Bonito precisa de muito apoio em tudo'

Leichtweis disse ainda que o clima geral na cidade é de luto, com as pessoas “sofrendo nas ruas e olhando para o que sobrou das suas casas”. A mãe e a irmã decidiram se mudar para Laranjeiras do Sul, “porque as casas ficaram sem condições de morar mesmo cobrindo novamente”.

Ela já viu muitos moradores partindo, contando que a expectativa é que mais riobonitenses deixem as suas residências, sem outra escolha. “Muitas casas já estão vazias, muitas pessoas vão embora e nem vão voltar, porque nesse momento não têm condições, não tem nem psicológico para tentar se reorganizar”.

A estudante reforçou a importância das doações e auxílio de voluntários, afirmando que observa muita solidariedade neste momento difícil. “Todo o povo de Rio Bonito precisa de muito apoio em tudo. Vemos tantas crianças agora que não têm nem escola, vai ser uma mudança muito drástica na rotina delas. O pânico que essas crianças e suas famílias passaram é indescritível, a gente vê a tristeza das pessoas no semblante”.

Correu para ver se a família estava viva

Alana Britto viveu 23 anos de sua vida em Rio Bonito do Iguaçu, chegando aos 5 anos de idade. Enquanto toda a família ainda reside no município, ela se mudou para Laranjeiras do Sul e atua como psicóloga. Às 19h10 da última sexta, fechou seu consultório e viu a enxurrada de ligações e pedidos de ajuda. Como sua cidade do coração já estava sem internet e rede telefônica, o único modo de averiguar o bem-estar dos pais, tios e primos foi indo pessoalmente até o município vizinho. “A única coisa que pensei foi pegar o carro e correr para verificar se eles estavam vivos”, recordou.

O trajeto que demoraria 20 minutos levou duas horas, por conta da dificuldade dos veículos trafegarem, com escombros cobrindo as vias e calçadas. “No momento da tempestade, meus pais conseguiram se esconder debaixo da cama, o teto foi desabando em cima deles, mas não se feriram tanto. Uma telha caiu em cima do meu pai e machucou o ombro dele, mas não foi nada grave”, contou Britto.

Um dos falecidos em decorrência do tornado, Claudino Paulino Risse, 57, era vizinho de bairro da família de Alana. Ela contou que “é muito difícil ver que as tinham uma vida normal e, de repente, perderam tudo, bens materiais e pessoas importantes para elas”.

Consequências na saúde mental

Alana Britto pontuou que o município é formado, em sua maioria, por famílias vulneráveis e humildes, que “sobrevivem com salário mínimo e demoraram anos para conseguir construir o que elas têm, e perderam tudo em questão de minutos”.

Como psicóloga, se disse preocupada com o quanto a tragédia vai impactar os moradores, com consequências na saúde mental, citando “as crianças que vivenciaram tudo isso, que ficaram extremamente assustadas, e as famílias que estão com esse olhar de desesperança”.

Imagem ilustrativa da imagem ‘Só o tempo para amenizar a dor’, diz mãe de jovem morta em tornado
| Foto: Alana Britto

Ajuda aos animais feridos

Britto é a diretora da ONG Bicho Vivo, que vem atuando em uma varredura pela cidade nos últimos dias, resgatando cachorros e gatos feridos. No sábado, foram seis animais encontrados em estado crítico, levados a clínicas veterinárias em Laranjeiras do Sul; entre eles estava um gato que precisou ter o olho removido.

No domingo, foram 32 resgatados, também bastante feridos. A psicóloga informou que mais animais devem ser recolhidos dentre os próximos dias, com monitoramento contínuo nas ruas por parte dos integrantes da ONG e entrega de sacos de ração nas residências de quem precisa. “A maioria das pessoas perdeu as casas, não tem abrigo nem pra elas, quem dirá para os bichinhos”, considerou Britto.

Animais têm seus ferimentos limpos por membros da ONG Bicho Vivo
Animais têm seus ferimentos limpos por membros da ONG Bicho Vivo | Foto: Alana Britto

A ONG solicita doações via PIX na chave [email protected], para custear os insumos, como curativos e medicamentos, e as cirurgias às quais os animais são submetidos. Também pede por coleiras, correntes, cobertas , ração e disponibilidade por lares temporários. A Prefeitura de Rio Bonito do Iguaçu recebe doações em dinheiro, via chave 95.587.770-0001-99.

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