O BENEFÍCIO DA VISÃO SÓ NÃO ENXERGA QUEM NÃO QUER Ibiporã, no Norte do Paraná, mantém há mais de 10 anos um programa permanente para combater problemas de visão antes que a criança chegue à escola Dorico da SilvaVER PARA APRENDERMaria José Ferreira Gregui, coordenadora do Centro de Atendimento ao Deficiente Visual (Cadevi): ‘‘Oitenta por cento do conhecimento humano é adquirido através da visão. E muitas vezes o professor cobra do aluno algo que ele não tem condições de realizar’’ Silvana Leão De Londrina Dificuldade na aprendizagem do conteúdo escolar, indisciplina, irritabilidade. Alguns pais nem imaginam, mas problemas deste tipo, tão comuns nas salas de aula, podem ter origem na dificuldade de enxergar. Para evitar que a criança chegue em idade escolar com deficiências na visão, detectando e tratando as doenças o mais cedo possível, o município de Ibiporã (14 km a leste de Londrina) lançou, há quase 11 anos, um programa permanente de prevenção a problemas oculares. Modelo para o resto do País, o projeto nasceu sem muitas pretensões, em uma das escolas públicas da cidade. Com o tempo foi tomando vulto, deu origem ao Centro de Atendimento ao Deficiente Visual (Cadevi), e já foi premiado como o melhor trabalho da região sul do País pelo Congresso Brasileiro de Oftalmologia, realizado em Goiânia em 1997. Hoje, mais de 52 mil alunos do pré à 4ª série do ensino fundamental já foram submetidos a teste, e 4.368 crianças de creches, de três meses a cinco anos, já passaram por triagem. A iniciativa é uma parceria entre a Secretaria Municipal de Saúde e Secretaria Estadual de Educação. Segundo a coordenadora do projeto, Maria José Ferreira Gregui, o trabalho já detectou até bebês com catarata. Os testes em sala de aula são feitos por professor treinado, utilizando a tabela de Snellen. As crianças com pequeno rebaixamento visual são encaminhadas para segunda triagem, onde são submetidas a teste com aparelho de esquiascopia. Aquelas com rebaixamento visual mais intenso são encaminhadas para consulta. No caso dos alunos do Cadevi, os óculos são fornecidos gratuitamente pelo município. O diferencial do trabalho realizado em Ibiporã é a continuidade. Por tratar-se de um programa e não de uma campanha, como a realizada com apoio do governo federal, os alunos são testados todos os anos. ‘‘As campanhas são trabalhos passageiros e, embora também sejam importantes, não oferecem os benefícios da continuidade’’, frisa Maria José Gregui, lembrando que o principal objetivo é a prevenção. ‘‘A gente espera que um dia o Cadevi não precise mais existir.’’ A coordenadora lembra que a visão, assim como a audição, é o canal por onde chega a informação, portanto deve estar em perfeito estado para que ocorra o aprendizado. ‘‘Oitenta por cento do conhecimento humano é adquirido através da visão. E muitas vezes o professor cobra do aluno algo que ele não tem condições de realizar’’. Outros 480 municípios brasileiros fazem parte da Campanha Nacional de Reabilitação Visual Olho no Olho, lançada em setembro do ano passado pelo Ministério da Educação (MEC) em parceria com o Conselho Brasileiro de Oftalmologia (CBO). A campanha, que faz parte do Programa Veja Bem Brasil, tem como alvo as crianças da 1ª série do ensino fundamental e só no ano passado contemplou aproximadamente 2,8 milhões de alunos da rede pública de ensino. Segundo Fátima Lutfi, assessora do Veja Bem Brasil no Conselho de Oftalmologia, estima-se que entre 15% e 20% das crianças que entram em idade escolar apresentem algum problema visual. Ela informa que foram investidos em 99 – segundo ano em que o programa direcionou seus trabalhos às crianças – R$ 10 milhões, repassados pelo MEC. Destes, R$ 4 milhões foram repassados às prefeituras para a compra de óculos. Este ano a campanha deve se repetir, com orçamento semelhante.‘‘Estamos lutando para transformar a campanha em programa’’, informa Fátima Lutfi. Em torno de 4 mil oftalmologistas participam da iniciativa, treinando professores para a aplicação do Teste de Snellen e realizando consultas. Em Londrina, a campanha Olho no Olho tem a participação do Núcleo Regional da Educação (NRE) e Secretaria Municipal de Educação, com apoio da Associação Médica. Segundo o coordenador médico Gerson Lopes, todas as crianças de primeira série da rede pública já foram examinadas no município. ‘‘Ao iniciarmos a campanha, em setembro passado, tivemos uma grata surpresa ao saber que, por iniciativa do NRE e Secretaria de Educação, todas as crianças já haviam passado por triagem, o que facilitou muito o nosso trabalho.’’ De acordo com o oftalmologista, em 99 foram triados cerca de 7,4 mil alunos da rede estadual e municipal de Londrina. Destes, 229 foram encaminhadas para consulta médica. Este ano os testes de acuidade visual já foram iniciados nas escolas municipais da cidade, que desenvolvem o trabalho em todos os alunos de 1ª a 4ª série. Segundo Deolinda Puzzo, assessora técnica pedagógica e coordenadora da campanha na Secretaria Municipal de Educação, cerca de 21,3 mil crianças já foram submetidas a teste. Destas, pelo menos 2,3 mil serão encaminhadas para consulta, através do Conselho Intermunicipal de Saúde do Médio Paranapanema (Cismepar). ‘‘Estamos acelerando o processo para não corrermos o risco de esperarmos o início da campanha pelo governo federal (que geralmente acontece nos últimos meses do ano), e termos pouco tempo hábil para realizá-la’’, explica Deolinda Puzzo.