Só 9% dos jovens estão matriculados em faculdades
PUBLICAÇÃO
sábado, 03 de abril de 2004
Agência Estado 
São Paulo - Em se tratando de ensino superior, o Brasil está mais para Bolívia ou para França? Dependendo do seu ponto de vista, as duas respostas podem estar certas. A qualidade da pesquisa feita em algumas das melhores universidades públicas do País é comparável à de muitos países desenvolvidos europeus. Mas, quando se fala de acesso da população ao 3º grau, um outro Brasil aparece. Somente 9% dos jovens entre 18 e 24 anos estão matriculados no ensino superior, segundo dados do Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais (Inep). Na Bolívia, cuja economia é 61 vezes menor que a brasileira, o índice é de 20%. Na Argentina, quase 40%.
Há quatro anos, o Congresso Nacional tentou mudar essa situação por meio de uma lei. O Plano Nacional de Educação (PNE) dizia que, até 2008, 30% dos jovens brasileiros teriam de estar na universidade. Isto é, algo em torno de 9 milhões de pessoas. A meio caminho da conclusão das metas, o plano parece mera utopia. Pouco mais de 3 milhões estão hoje em universidades e faculdades do País. Para tentar acelerar a inclusão, o Ministério da Educação (MEC) finaliza agora o programa Universidade Para Todos, que pretende ''estatizar'' ainda neste ano entre 70 mil e 75 mil vagas nas instituições particulares.
As barreiras ao ensino superior são velhas conhecidas. A primeira delas se chama renda. No Brasil, cerca de 70% das vagas são oferecidas pelas particulares, cujas mensalidades variam em média no Estado de São Paulo entre R$ 400 e R$ 600.
Para muitos jovens em idade universitária, bolsas de estudo são a única alternativa. Mas aqui se chega a um problema. ''Não há um critério público de concessão de bolsas no País. Cada instituição faz sua regra. E isso prejudica muita gente'', critica Sérgio Custódio, um dos coordenadores do Movimento dos Sem-Universidade (MSU), organização não-governamental (ONG) que promove cursinhos populares em 11 Estados e no Distrito Federal.
''Do jeito que é hoje, bolsas viram muitas vezes uma moeda eleitoral. O político pede ao dono da faculdade privada para beneficiar suas bases e em troca oferece benefícios'', diz Custódio. Entidades que reúnem instituições particulares negam a acusação, mas admitem que os critérios variam. Vão de baixa renda a melhores notas no processo seletivo.
A pressão por vagas no ensino superior cresce aceleradamente. Em 1991, 666.367 jovens se formaram no ensino médio. Em 2002, foram 2.065.722. Uma multidão advinda principalmente das classes C, D e E. Muitos até passam pelo processo seletivo, mas param na tesouraria.
''Quando eu me formei no médio, em 1996, tentei Fuvest, mas não deu. Entrei na Osvaldo Cruz, no curso de Engenharia Química'', diz Charles Monteiro de Jesus, de 30 anos, filho de uma família humilde da periferia da cidade. ''Fiz a matrícula e frequentei por dois meses. Depois disso, não deu mais. A mensalidade era de uns R$ 430 e eu ganhava só um pouquinho mais que isso. Tentei uma bolsa, mas eu tinha de esperar pelo menos seis meses. Desisti.''
Isenção - Há quase dez anos, a Fuvest vem concedendo isenção a estudantes carentes. Neste ano, foram 20 mil. É uma das formas da Universidade de São Paulo (USP) tentar aumentar a presença de alunos de baixa renda nas suas salas de aula. Segundo a pró-reitora de graduação, Sônia Penin, muito jovens nem sequer arriscam prestar o vestibular. ''Uma parte deles porque talvez não possa pagar as inscrições'', comenta.
É o caso de Ivi Maiga, de 20 anos. ''Só tentei USP porque consegui isenção da taxa de inscrição, que era de uns R$ 80'', diz. ''Senão, não sei se teria feito. Meu irmão, que não conseguiu a isenção, nem quis se inscrever. É muito dinheiro.''
Para Ivi e Jesus o acesso ao ensino superior significa a chance de ter uma vida melhor do que a de seus pais. Na família de ambos, os pais chegaram no máximo ao ensino médio.


