Só 10% dos viciados se livram da droga
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sexta-feira, 22 de novembro de 1996
Simone Mattos 
O crack já deixou de ser consumido exclusivamente pelos moradores das favelas do Rio e São Paulo e atingiu a classe média das grandes cidades. Em Curitiba, os registros já são frequentes e o quadro é de difícil recuperação. A situação atual das drogas é tão grave como uma epidemia. O crack é a pior delas por exacerbar a violência no usuário, disse o secretário do Conselho de Entorpecentes (Conen), Olien Zetola. O índice de recuperação de viciados é de apenas 10%.
A mistura de pasta básica de cocaína, bicarbonato de sódio e água, batizada como crack, resulta em euforia para alguns, compulsão para outros e deterioração cerebral seguida de morte para a maioria. O terapeuta da Clínica Nova Esperança, Ivo Hermógenes, responsável pela recuperação de viciados, diz que são raros os usuários de crack que conseguem se recuperar.
Ele disse que para cada grupo de dez pacientes, três abandonam o tratamento no primeiro mês, dois recaem logo após o tratamento, dois tentam usar a droga escondido durante o tratamento, um comete suicídio, um morre decorrente do uso da droga e apenas um se recupera do vício.
Os efeitos do crack são devastadores, piores do que os resultantes do uso de qualquer outra droga, disse a administradora da clínica, Aracélis Copedê Filha. Ela explicou que a dependência é imediata, logo após o segundo uso, e que os primeiros sintomas sentidos pelos usuários são taquicardia alterada, tremores, falta de coordenação e domínio sobre os músculos e visão alterada.
A clínica já atendeu neste ano 25 casos de dependência em crack. Alguns pacientes quando chegam aqui estão utilizando a droga dez ou 15 vezes ao dia, conta Aracélis. Um dos motivos do aumento no consumo pode ser o baixo preço do crack em relação a outras drogas. Enquanto um grama de cocaína custa em média R$ 30,00, a pedra de crack custa em torno de R$ 10,00.
O terapeuta da clínica explicou que a agressividade dos pacientes nos períodos de abstinência é impressionante. Como a dependência acontece numa velocidade muito superior a de outras drogas, a agressividade resulta do fato da pessoa não entender porque está perdendo a sua identidade tão rapidamente, explicou.
Segundo ele, é preciso que a família tenha o máximo de tolerância e uma orientação adequada para entender os momentos mais difíceis da abstinência, que acontecem nos três primeiros meses.


