Situação comum no Centro ou na periferia
Para os irmãos Bruno e Tiago, 13 e 12 anos, a palavra legislação faz pouco ou nenhum sentido. De família pobre, sem pai e mãe desempregada, é o trabalho deles que vai ajudar a sustentar os outros dois irmãos. O mais velho diz que o papel e papelão rendem, em dias bons, até R$ 30. Eles mesmos é que negociam a venda, em um depósito de papéis localizado na região central.
No dia em que foram flagrados no Calçadão, os irmãos estavam trabalhando há cerca de quatro horas. Bruno, o mais velho, diz que nunca foram incomodados por nenhum tipo de fiscalização. Perguntas mesmo, segundo eles, só de gente a quem eles pedem ajuda e quer saber da vida dos meninos. Afirma também que frequenta a escola e só estaria ali naquele horário pelas férias. ''Quando tem aula, a gente trabalha só de vez em quando'', diz, não muito convicto.
O trabalho, aliás, não é o primeiro. ''Fiquei uns três anos engraxando sapatos, o trabalho era bom'', conta. Só parou porque a caixa quebrou e a família não tem dinheiro para comprar outra. Se trabalham feito gente grande, a cabeça ainda é de criança. Ao lado do carrinho, os meninos guardam lembranças encontradas no lixo. Entre elas a fotografia de uma moça, que ambos acharam bonita e virou namorada da imaginação.
Se no centro da cidade não é difícil encontrar crianças em situação de exploração tão flagrante, na periferia as irregularidades se multiplicam em histórias diversas. As amigas Daiane e Camila, de 15 anos, também trabalham há tempos. Como os pais, fazem bicos aqui e ali para melhorar a renda da família e também para garantir uma roupa ou um perfume muito desejado.
Daiane vara as madrugadas de sábado servindo como garçonete em um buffet. Em tese, o trabalho é duplamente irregular. Além da idade insuficiente, menores não podem trabalhar à noite sob nenhuma hipótese.
Para Daiane, entretanto, a atividade é vista como uma excelente oportunidade. ''Não atrapalha os estudos porque é só no final de semana e até me divirto no trabalho, a mulher vem me buscar e me traz em casa'', argumenta. Com o dinheiro ganho, que varia de R$ 50 a R$ 80 por festa, ela ''ajuda e compra coisas para ela''. (A.S.)





