Sítio no Oeste pode esconder ossadas
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sábado, 03 de junho de 2000
Valmir Denardin Enviado a Matelândia 
Um sítio entre os municípios de Matelândia e Medianeira (municípios do Extremo-Oeste parananese, próximos à fronteira com Paraguai e Argentina) poderá esclarecer o destino de um grupo de vítimas das ditaduras sul-americanas durante a vigência da Operação Condor.
Seria nesse sítio, supostamente localizado em uma comunidade rural conhecida como Linha Barreirão, que estariam os corpos de sete guerrilherios que teriam sido capturados, torturados e mortos pelo Exército brasileiro. O grupo era composto por seis brasileiros e um argentino. Eles teriam sido mortos em 1974, quando entravam no Paraná, procedentes da Argentina, para promover ações armadas no Estado contra a ditadura militar.
A propriedade rural teria sido comprada em 1968 por Sebastião Medeiros, um carioca integrante do Movimento Revolucionário 8 de Outubro (MR-8). Naquele ano, o MR-8 escolheu duas áreas no Oeste do Paraná para seus treinamentos de técnicas de guerrilha. A outra era o Sítio Boi Piquá, em Toledo (45 quilômetros a noroeste de Cascavel).
Em 1969, o aparelho da Linha Barreirão foi descoberto e Medeiros, preso. Como era comum acontecer nesse tipo de situação, o Exército teria confiscado o sítio, para transformá-lo em local de detenção e tortura de presos políticos.
Na primeira metade dos anos 70, os grupos guerrilheiros brasileiros começaram a ser desmantelados, com a prisão ou o exílio de seus principais líderes. Mas, em julho de 74, o ex-sargento do Exército Onofre Pinto, um dos líderes da Vanguarda Popular Revolucionária (VPR) extinta em 73 , que vivia na Argentina, resolveu voltar ao Brasil para reiniciar as atividades de guerrilha.
Para atraí-lo de volta ao Brasil, o Exército teria utilizado o ex-sargento Albery Veira dos Santos, um agente infiltrado. Aluizio Ferreira Palmar, ex-líder do MR-8 e da VPR, testemunhou um encontro entre Onofre e Albery. Esse encontro ocorreu no Natal de 1973, em Buenos Aires.
Onofre então reuniu seis seguidores e entrou no Paraná por Santo Antônio do Sudoeste, município que faz fronteira seca com a Argentina. Estava acompanhado por cinco militantes brasileiros que estavam asilados na Argentina e pelo estudante argentino Enrique Ruggia, na época com 18 anos. Apesar de não ter militado em nenhum partido ou organização, Ruggia teria decidido se aliar à luta de Onofre Pinto.
Ao entrar no Paraná, os sete teriam sido capturados pelo Exército, levados ao sítio confiscado do MR-8, onde é provável que tenham sido torturados e mortos. Há duas suposições para o enterro de seus corpos: o próprio local ou o Parque Nacional do Iguaçu, reserva com 185 mil hectares de mata que abrange municípios das regiões Oeste e Sudoeste do Paraná. Os corpos desse pessoal nunca foi encontrado, lembra Palmar, chorando.
A psicóloga argentina Lilian Ruggia, de 38 anos, ainda não desistiu de encontrar os restos mortais do irmão Enrique. Em 1993, ela visitou Foz do Iguaçu com esse objetivo. Em 97, mandou uma carta ao deputado estadual Irineu Colombo e ao prefeito de Medianeira, Luiz Suzuke ambos do PT , pedindo o apoio deles nas buscas.
Na última semana, a reportagem da Folha tentou localizar o sítio onde os guerrilheiros teriam sido mortos. Moradores da comunidade rural afirmaram desconhecer a existência desse sítio e as supostas atividades desenvolvidas nele. Nos cartórios de Registro de Imóveis de Medianeira e Matelândia também não há qualquer escritura de propriedade em nome de Sebastião Medeiros ou do Exército.
Em entrevista à revista Veja, o ex-sargento Marival Chaves, que trabalhou nos órgãos da repressão da ditadura militar, confirmou que o grupo de Onofre caiu na cilada em que o pivô teria sido o também ex-sargento Albery. Em 11 de fevereiro de 79, o corpo de Albery, principal testemunha desse episódio, foi encontrado entre os municípios de Medianeira e Missal. Sua morte também é atribuída aos militares.


