A criança se pendura no tanque de concreto e este, por não estar preso à parede, cai sobre o corpo dela. A cena vem acontecendo com uma frequência tão grande que os médicos já apelidaram o problema de ''Síndrome do Tanque''. Só no Hospital Universitário (HU) de Londrina, de 2006 para cá, já foram registrados 121 casos como esse, sendo 45 só este ano. Mas, segundo o cirurgião pediatra Lúcio Marchese, chefe da pediatria do hospital, o número deve ser ainda maior. ''Alguns familiares omitem essa informação, talvez por temer represálias. Então o número deve ser pelo menos 20% maior, chegando próximo a 150'', calculou.
Marchese convidou a imprensa ontem para falar sobre o assunto, após receber em seu setor mais dois casos dessa síndrome. ''O tanque é o maior predador das crianças com idade entre 2 e 6 anos'', alertou, acrescentando que o número de casos praticamente dobrou de uns dois anos para cá. Em sua avaliação, um dos fatores que pode ter contribuído para esse aumento é o crescimento do número de construções tecnicamente precárias, viabilizado em parte por uma melhora na renda das classes mais baixas. ''É uma doença da periferia, causada principalmente pela falta de informação'', alertou.
O problema envolve basicamente o tanque de concreto, cujo peso pode variar de 50 até 90 quilos, e cujo modelo pára em pé sem a necessidade de um apoio - o que pode dar a falsa impressão de que não precisa ser fixado em lugar nenhum. Os outros modelos, de louça, plástico, inox ou outros materiais, apesar de não estarem isentos de risco, são mais leves e por isso menos danosos.
Segundo o pediatra, os problemas decorrentes da queda do tanque sobre o corpo da criança variam de acordo com a idade e a parte atingida, e podem deixar sequelas ou levar até à morte. ''Nas crianças maiores, é comum atingir mais os membros e o abdome. Com 4 ou 5 anos, o tórax e o abdome são os mais afetados. Já nas crianças menores, o perigo é maior e os casos costumam ser mais graves, por atingirem também o crânio e o pescoço'', informou, acrescentando que as crianças menores ainda apresentam menor resistência e menos força muscular. Nos últimos dois anos, Marchese disse ter tomado conhecimento de dois casos de óbito relativos a essa síndrome em Londrina.
O pediatra ressaltou ainda que em muitos casos o acidente não deixa marcas externas no corpo da criança, mas que pode ter atingido órgãos como o fígado, o baço e o pâncreas, havendo o risco inclusive de hemorragia interna. Por isso, ele recomenda aos pacientes sempre procurar por atendimento médico nesses casos.
Sem uma orientação mais clara sobre a necessidade de se fixar o tanque a uma parede ou colocar uma sustentação para que ele não tombe, casos como esse devem continuar acontecendo. Pensando em resolver esse problema, Marchese sugeriu algumas medidas simples e de fácil implementação: ''A solução seria a fábrica acrescentar ao tanque um folheto com informações, como forma de instalação e cuidados. Também poderia ser criada uma lei que determinasse a notificação da venda desse produto ao Ministério da Saúde. O próprio agente de saúde poderia verificar e notificar a existência desse tanque nas residências atendidas''.

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