A menos de três meses de se tornarem obrigatórios nos centros de formação de condutores (CFC) de todo o território nacional, os simuladores de direção - máquinas que imitam um veículo em percurso virtual - estão no centro de uma grande polêmica. De um lado, os Departamentos Estaduais de Trânsito (Detrans), que incentivam a implantação da nova metodologia como complemento às aulas práticas, e do outro, as autoescolas, que questionam sua eficácia e preveem aumento de custos para a adaptação estrutural.
Os fabricantes – são apenas quatro homologados no Brasil – garantem que o aparelho é capaz de simular situações reais de pilotagem, como dirigir em estradas, montanhas, neblina, aquaplanagem e obstáculos na pista, por exemplo. "São situações que ele não pode prever na rua. Ele ajuda também a desenvolver habilidades sensoriais e testar conhecimentos teóricos. E ao final de uma aula é possível ter um relatório apontando erros e acertos. Ele vem para complementar a formação", elencou Joelson Alves, responsável técnico pelos simuladores da ProSimulador no Paraná.
Para os Detrans, essas características podem ser fundamentais aos alunos em fase inicial do processo de obtenção da carteira nacional de habilitação. "Acredito que ele é uma prévia para a rua, o que é mais importante, não há a menor dúvida. Mas quando há um cidadão que nunca dirigiu, ele vai passar a fazer isso a partir do momento em que entra num centro de formação, e de forma mais segura. Quando os alunos chegam na parte prática já estão com uma visualização melhor e com uma visão mais ampla do que é o trânsito", argumentou o diretor-geral do Detran-PR, Marcos Traad.
Em Alagoas, Acre, Paraíba e Rio Grande do Sul, o simulador já é obrigatório desde o ano passado. E segundo o diretor do Detran do Paraná, estudos que apontaram para uma redução no número de acidentes e melhorias no processo de formação dos condutores nestes Estados foram importantes para determinar o apoio à nova tecnologia em solo paranaense. "Existem dados importantes, de universidades que já estudaram esse assunto, que caracterizam que o processo de formação melhora quando o cidadão, antes de fazer as aulas práticas, faz aulas no simulador", defendeu Traad.

Simulador de direção divide opiniões
Simulador de direção divide opiniões Simulador de direção divide opiniões Simulador de direção divide opiniões Simulador de direção divide opiniões


O discurso, no entanto, está longe de convencer as autoescolas, que ainda não conseguiram visualizar o ganho técnico que o uso do simulador poderá proporcionar. "Pelo que vimos até agora, está bem longe de demonstrar a realidade. Para o aluno, o mais interessante é estar no trânsito. Não há estudo algum que comprove que ele pode ser benéfico", analisou o proprietário de uma autoescola de Londrina.
De acordo com a resolução 543, do Contran, publicada no Diário Oficial da União em 20 de julho deste ano, que torna obrigatório o uso do aparelho, o aluno terá que passar por mínimo de 5 horas/aula no simulador, sendo uma hora de conteúdo noturno. Ao todo, são necessárias 25 horas ao volante para tirar a carteira de motorista na categoria B (para veículos leves). Numa segunda etapa, será obrigatório o uso do simulador para quem dirigir veículos comerciais, caminhão, ônibus e motos.
Outro ponto de divergência em torno do simulador é o custo. O imbróglio começou no início do ano passado, quando o Contran determinou a obrigatoriedade do uso do aparelho. Diante da reclamação das autoescolas, que seriam obrigadas a comprá-lo - valor é de R$ 40 mil, o órgão decidiu tornar a decisão facultativa para cada Estado.
Talvez isso explique um pouco a resistência por parte dos centros de formação em Londrina. Até o momento, apenas dois deles aceitaram receber o aparelho para testes. Ciente das queixas, as fabricantes mudaram o formato e oferecem o simulador "alugado", com uma taxa fixada por aula. Assim, tentam argumentar que não haverá custos excedentes para os CFCs.
"O único investimento que eles (CFCs) têm que fazer hoje é o espaço. Uma sala de sete metros quadrados, com distância de um metro entre eles. Um ponto de internet e uma tomada. É só isso", falou o técnico da ProSimulador.
"É um sócio que vamos ter que agregar ao negócio de forma obrigatória", reclamou o proprietário ouvido pela reportagem. "Na conta deles, vai ser mais barato, mas não é bem assim. Vamos gastar mais com energia elétrica, uma sala adaptada, climatizada, então vai aumentar sim", argumentou.
Acréscimo este que, claro, será repassado aos alunos. O processo, que hoje custa em torno de R$ 1,7 mil deve ficar até 20% mais caro. O diretor do Detran do Paraná minimizou. "Se o processo de formação se consolida e é melhor, o desgaste que for gerado não tira o mérito da utilização dos simuladores", observou Traad.
A reportagem procurou o Sindicato dos Proprietários de Centros de Formação de Condutores do Paraná, mas não obteve retorno até o fechamento desta edição.

mockup