Simpósio defende hospitais psiquiátricos
Adriana De Cunto
Josoé de CarvalhoTratamento difícilZedyr Macedo, que defende hospitais psiquiátricos: ‘Convido essas
pessoas da luta antimanicomial a passarem uma semana na minha casa’ Pela segunda vez neste mês os londrinenses voltaram a discutir os problemas enfrentados por doentes mentais e familiares. No sábado, foi a vez da Associação de Amigos, Familiares e Doentes Metais (AFDM) - entidade defensora dos hospitais psiquiátricos públicos e privados - promover um encontro. O 4º Simpósio do Centro de Estudos Dr. João Nicolau foi realizado ontem na Associação Médica de Londrina (AML). O evento reuniu durante eunindo médicos, psicólogos, pacientes e pessoas da comunidade.
O simpósio acabou funcionando como resposta ao Dia Nacional da Luta Antimanicomial, comemorado no dia 18 de maio, com atividades em várias cidades do Brasil, incluindo Londrina.
O presidente nacional da AFDM, o carioca Zedyr Macedo, criticou o fechamento dos hospitais psiquiátricos. Ele fez a palestra de abertura do simpósio abordando o tema ‘‘A situação atual das Associações de Familiares de Doentes Mentais no Brasil e no Exterior’’.
Zedyr Macedo é um dos fundadores da AFDM, entidade que completou ontem sete anos de atividade. Ele afirma: ‘‘Os grupos da luta antimanicomial estão irresponsavelmente destruindo a rede de hospitais psiquiátricos públicos e levando à destruição a rede privada de hospitais. Tudo isso sem construir a rede complementar necessária para o tratamento dos diversos tipos de doenças mentais’’.
Zedyr Macedo diz considerar incorreta a denominação ‘‘manicômio’’ para hospitais psiquiátricos. Segundo ele, manicômio é o local onde são colocados os psicopatas que cometeram crimes e que deveriam, nesses locais, receber tratamento para que se recuperem. ‘‘O manicômio foi criado por causa da periculosidade desse tipo de doente’’, comenta.
Já os hospitais psiquiátricos, na opinião do presidente, são locais de tratamento para os doentes que não têm condições de ficar em casa. ‘‘É a internação por necessidade’’, responde. ‘‘A família não se livra do doente para colocá-lo em hospital psiquiátrico.’’
Macedo conta que tem dois cunhados portadores de doença mental. De acordo com ele, em algumas fases da doença é impossível o tratamento em casa. ‘‘Eu convido essas pessoas da luta antimanicomial a passarem uma semana na minha casa.’’
Segundo o presidente, a discussão pelo fechamento dos hospitais psiquiátricos surgiu há alguns anos com a criação do projeto de lei que ainda está sendo discutido pelo congresso. É a Lei Delgado. Esse projeto prega a extinção dos hospitais psiquiátricos e a criação de alternativas como hospitais-dia. ‘‘Embora a lei ainda não tenha sido aprovada, 40 mil leitos públicos já foram desativados.’’
Zedyr Macedo conta que a Lei Delgado foi inspirada no modelo criado por um italiano chamado Franco Basaglia, responsável pela mudança no atendimento a doentes mentais na cidade italiana de Trieste. ‘‘Este modelo só deu certo em Trieste, que é uma cidade rica, com 250 mil habitantes, que tem sete centros de assistência psiquiátrica funcionando 24 horas por dia e fazendo até o atendimento na casa dos doentes.’’
O modelo foi implantado naquela cidade, diz Macedo, porque havia um grande número de pacientes internados nos hospitais psiquiátricos. ‘‘O índice, em Trieste, era de 4,6 internações por mil habitantes. Quando a Organização Mundial de Saúde defende, nas grandes cidades, uma internação a cada mil habitantes.’’
Ele lembra ainda que estes centros de Trieste dão atendimento aos familiares dos pacientes, fornecem remédios e, mesmo assim, têm 70 pacientes crônicos internados. ‘‘Sabemos que o custo deste tipo de tratamento é inviável para o Brasil. Mas não precisa ser a porcaria do tratamento que é dado hoje’’, afirma.
A Associação de Amigos, Familiares e Doentes Mentais defende, segundo seu presidente, tratamento mais humano, adequado e assistência de ‘‘última geração’’ aos doentes mentais. Também luta para que a Saúde Pública passe a fornecer os principais medicamentos aos pacientes, bastante caros e inviáveis à classe mais carente.
Dezoito regionais da AFDM já existem em vários Estados brasileiros, totalizando 15 mil associados - 3 mil só no Rio de Janeiro. Por enquanto, a entidade se mantém com recursos dos diretores. A grande maioria dos associados - 90% - são familiares de doentes mentais crônicos. ‘‘E 99,99% são paupérrimos’’, diz o presidente.
Serviço - Em Londrina, a sede regional da Associação de Amigos, Familiares e Doentes Mentais foi recém-criada e funciona na Rua Piauí, 1.114, fone (043) 323-0119. A sede nacional fica na Rua Fonte da Saudade, 288, apartamento 202, Lagoa, Rio de Janeiro, CEP 21471-210. O telefone é (021) 537-4575.

mockup