Simpósio aponta soluções para síndrome do retorno ao Brasil
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quinta-feira, 30 de outubro de 1997
Dary Júnior 
Curitiba
Albari RosaCarlos Shinoda (à esq.): projetos contra dificuldades no ensinoA síndrome do regresso é o mal que mais tem afetado os dekasseguis, como são conhecidos os trabalhadores brasileiros no Japão. Segundo o psiquiatra Décio Nakagawa, eles enfrentam muitas dificuldades na readaptação ao Brasil. Ocorre uma reação paranóica, que faz a pessoa ficar confusa, se sentir perseguida e até estimula o suicídio, explica.
Nakagawa abordou o assunto ontem à noite, em Curitiba, durante um simpósio sobre saúde mental e educação dos dekasseguis. Nos últimos dez anos, ele já atendeu a 197 pacientes que tiveram problemas na volta ao Brasil depois de uma temporada de trabalho no Japão. Pelo menos 80% deles pensaram em se matar e 15% tentaram. Dois conseguiram, contabiliza o psiquiatra.
De acordo com o especialista, é comum o dekassegui em crise acreditar cegamente que a Yakuza (máfia japonesa) está em seu encalço e ouvir vozes. O medo faz com que essas vozes o aconselhem a retornar ao Brasil, onde chega e sofre um novo choque cultural, já que geralmente não se prepara nem para a ida ao Japão, relata Nakagawa.
Outro dado importante está na relação familiar. Há uma mudança: a mulher que ficou aqui ganha responsabilidade e se torna mais independente, enquanto o companheiro ausente trata de economizar dinheiro e vira uma pessoa introspectiva, diz o psiquiatra. Na volta dele, o clima está favorável ao conflito que pode levar à separação, acrescenta.
A psicoterapia tem sido a forma de tratamento mais utilizada nesses casos. Também recomendamos o uso de tranquilizantes leves, conta Nakagawa. Mas o ideal é uma preparação antes da viagem ao Japão para adquirir informações sobre gerenciamento, por exemplo, de modo a otimizar os benefícios de um país de primeiro mundo, ressalva o especialista.
Educação - O professor Carlos Shinoda foi outro convidado para o simpósio promovido pela Associação de Apoio aos Dekasseguis (AAD). Ele vive há mais de quatro anos no Japão e mapeou a realidade educacional dos diferentes grupos de brasileiros radicados lá. São cerca de 220 mil dekasseguis, que enviam US$ 4 bilhões para o Brasil todo ano.
Desenvolvi dois projetos para minimizar as dificuldades de ensino comuns no retorno ao Brasil, disse Shinoda. O Projeto Ceteban é de educação à distância. Trata-se de um curso supletivo - reconhecido pelo Ministério da Educação - de primeiro e segundo graus para os trabalhadores brasileiros no Japão, realizado com uma parceria entre a Universidade Bandeirante de São Paulo (Uniban) e o Centro de Ensino Tecnológico de Brasília.
Já o Projeto Mutirão da Educação é voltado às crianças. Embora não seja reconhecido pelo MEC, o curso daria condições para que o aluno fizesse a avaliação escolar - prevista na nova Lei de Diretrizes e Bases (LDB) da Educação - na volta ao Brasil para dar sequência aos estudos.
Atualmente o mutirão conta com 150 alunos, espalhados em cinco núcleos, que funcionam inclusive nas casas dos agentes educacionais. Shinoda espera conseguir apoio da iniciativa privada para ampliar o alcance do projeto.


