Curitiba

Albari RosaCarlos Shinoda (à esq.): projetos contra dificuldades no ensinoA ‘‘síndrome do regresso’’ é o mal que mais tem afetado os dekasseguis, como são conhecidos os trabalhadores brasileiros no Japão. Segundo o psiquiatra Décio Nakagawa, eles enfrentam muitas dificuldades na readaptação ao Brasil. ‘‘Ocorre uma reação paranóica, que faz a pessoa ficar confusa, se sentir perseguida e até estimula o suicídio’’, explica.
Nakagawa abordou o assunto ontem à noite, em Curitiba, durante um simpósio sobre saúde mental e educação dos dekasseguis. Nos últimos dez anos, ele já atendeu a 197 pacientes que tiveram problemas na volta ao Brasil depois de uma temporada de trabalho no Japão. ‘‘Pelo menos 80% deles pensaram em se matar e 15% tentaram. Dois conseguiram’’, contabiliza o psiquiatra.
De acordo com o especialista, é comum o dekassegui em crise acreditar cegamente que a Yakuza (máfia japonesa) está em seu encalço e ouvir ‘‘vozes’’. ‘‘O medo faz com que essas ‘vozes’ o aconselhem a retornar ao Brasil, onde chega e sofre um novo choque cultural, já que geralmente não se prepara nem para a ida ao Japão’’, relata Nakagawa.
Outro dado importante está na relação familiar. ‘‘Há uma mudança: a mulher que ficou aqui ganha responsabilidade e se torna mais independente, enquanto o companheiro ausente trata de economizar dinheiro e vira uma pessoa introspectiva’’, diz o psiquiatra. ‘‘Na volta dele, o clima está favorável ao conflito que pode levar à separação’’, acrescenta.
A psicoterapia tem sido a forma de tratamento mais utilizada nesses casos. ‘‘Também recomendamos o uso de tranquilizantes leves’’, conta Nakagawa. ‘‘Mas o ideal é uma preparação antes da viagem ao Japão para adquirir informações sobre gerenciamento, por exemplo, de modo a otimizar os benefícios de um país de primeiro mundo’’, ressalva o especialista.
Educação - O professor Carlos Shinoda foi outro convidado para o simpósio promovido pela Associação de Apoio aos Dekasseguis (AAD). Ele vive há mais de quatro anos no Japão e mapeou a realidade educacional dos diferentes grupos de brasileiros radicados lá. São cerca de 220 mil dekasseguis, que enviam US$ 4 bilhões para o Brasil todo ano.
‘‘Desenvolvi dois projetos para minimizar as dificuldades de ensino comuns no retorno ao Brasil’’, disse Shinoda. O Projeto Ceteban é de educação à distância. Trata-se de um curso supletivo - reconhecido pelo Ministério da Educação - de primeiro e segundo graus para os trabalhadores brasileiros no Japão, realizado com uma parceria entre a Universidade Bandeirante de São Paulo (Uniban) e o Centro de Ensino Tecnológico de Brasília.
Já o Projeto Mutirão da Educação é voltado às crianças. Embora não seja reconhecido pelo MEC, o curso daria condições para que o aluno fizesse a avaliação escolar - prevista na nova Lei de Diretrizes e Bases (LDB) da Educação - na volta ao Brasil para dar sequência aos estudos.
Atualmente o mutirão conta com 150 alunos, espalhados em cinco núcleos, que funcionam inclusive nas casas dos agentes educacionais. Shinoda espera conseguir apoio da iniciativa privada para ampliar o alcance do projeto.

mockup