‘‘O homem do campo está sempre com o pescoço dolorido, de tanto olhar para o céu para saber se vem chuva. Agora, nossa cabeça também está dolorida, de tanto medo e preocupação com o ataque dos bandidos’’. Dessa forma, o agricultor Yoshimiti Ogata, 67 anos, sintetiza a situação de insegurança que é enfrentada por quem, literalmente, tira o sustento da terra na região de Ibiporã, Jataizinho e Assaí.
  Desde o final de 2006, os produtores rurais recebem as indesejáveis visitas de ladrões, que assaltam desde grandes propriedades até pequenos sítios. Hoje, em vez da prosa do início de noite nas varandas, as portas e janelas se trancam assim que o sol se põe, e o campo, lugar que já foi sinônimo de tranqüilidade, agora é marcado pelo medo.
  Para conhecer o problema de perto, a reportagem da FOLHA rodou mais de 100 Km pelas estradas de terra que passam por diversas propriedades assaltadas nas últimas semanas. Alguns agricultores nem quiseram conversa. Ainda vivem o trauma de ter a casa invadida por homens armados, na calada da noite, e passar algumas horas de terror. Existe também o temor de alguma represália. Outros aceitaram falar, esperando que o problema, depois de estampado no jornal, desperte a atenção das autoridades.
  ‘‘Está difícil viver assim. Estou sempre com medo. O governo fala que não devemos andar armados, mas é o contrário, estamos precisando ficar de armas em punho para nos defender’’, indigna-se o agricultor Ogata, que colocou uma corrente na entrada dos seus 45 alqueires de terra, onde planta milho e soja, para sentir-se um pouco mais protegido.
  No final do ano passado, os assaltantes invadiram o sítio do agricultor. Armados, renderam primeiro os funcionários e depois foram até a residência dos proprietários, dominaram quem lá estava e levaram diversas jóias, aparelhos eletrônicos, eletrodomésticos, armas e um carro, que foi abandonado dias depois na região central de Londrina. Até os R$ 2 mil que dona Noe, 91, a matriarca da família, estava guardando para dar de presente aos netos no Natal, foi para o bolso dos bandidos.
  A reportagem apurou que ocorreram pelo menos 11 assaltos na região, muito semelhantes ao realizado no sítio de Ogata. Fortemente armados, os bandidos estacionam o carro distante da propriedade e chegam sem fazer barulho. ‘‘Nem os cachorros latem’’, disse uma das vítimas. Nas propriedades que têm caseiros, eles rendem primeiro esses funcionários antes de chegar à sede. Usam capuzes, luvas e roupas de inverno e utilizam sempre o termo ‘‘parceiro’’ quando conversam entre si.
  Pedem para a vítima facilitar o ‘‘trabalho’’ e procuram principalmente por armas. Não agridem ninguém fisicamente, mas ameaçam matar se não houver colaboração. Reviram toda a casa e ficam algumas horas dentro da residência. Na maioria das vezes, levam também o veículo das vítimas.
  Foi assim que aconteceu em uma fazenda, às margens do Rio Tibagi. Quatro homens, armados e encapuzados, bateram na porta da casa do maquinista João (nome fictício), que mora na fazenda. Avisaram que era um assalto e o obrigaram a abrir.
  ‘‘Chegaram a engatilhar as armas e me deixaram na mira de um revólver. Minha mulher e meu filho sentiram muito medo. Pegaram a chave da casa dos patrões e lá reviraram tudo. Antes de ir embora ainda deram dois tiros, acho que só para intimidar. Levaram todos os telefones. Estava chovendo bastante, tive que esperar o dia clarear para avisar a polícia’’, conta o maquinista, que agora deposita a esperança de defesa em um revólver, comprado pelos proprietários da fazenda depois do assalto, quando os bandidos levaram algumas armas. Pego de surpresa, o maquinista não teve como utilizá-las.
  A FOLHA apurou ainda que não é só essa quadrilha que está amendontrando os produtores rurais. Outras modalidades de furtos e roubos também estão acontecendo com freqüência (veja box nesta página).

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