Silvana criou forças e reagiu
PUBLICAÇÃO
sábado, 27 de junho de 1998
Lúcio Horta 
A sociedade mata a gente socialmente. Isso é pior do que a morte física. A afirmação é de Silvana Gomes dos Santos, 35 anos, de Londrina. Infectada há quatro anos, Silvana soube como ninguém dar a volta por cima depois de perder o filho e o marido por causa da Aids. Há dois anos ela ajudou a montar uma Ong - chamada Reagir - justamente para dar assistência às pessoas contaminadas pelo HIV e que estão em dificuldades.
O exemplo de Silvana não é diferente da maioria das mulheres soropositivas no Brasil. O marido era usuário de drogas e acabou contaminando ela e, consequentemente, o filho, que morreu com todos os sintomas de Aids. Na época, porém, a doença não foi diagnosticada no menino. O motivo: os pais eram casados e a Aids ainda era identificada às minorias sexuais.
O Reagir surgiu em agosto de 96, em meio a uma crise na distribuição de medicamentos para os doentes de Aids. Por causa do trabalho do grupo, Londrina foi a segunda cidade do País a garantir o direito aos portadores em receber o chamado coquetel contra a Aids.
Hoje, o grupo conta com 11 pessoas, todas infectadas e que procuram mostrar aos portadores do HIV não só os direitos - como remédio, trabalho, sexualidade e opção em preservar ou não a sorologia - como também deveres. Nosso dever é não passar a doença. Você tem que prevenir e prevenir também a vida dos outros, diz.
Um dos grandes problemas identificados pelo grupo é o avanço da doença entre os heterossexuais. Silvana lembra, por exemplo, da dificuldade em travar um diálogo dentro de casa, entre marido e mulher, para discutir a questão da prevenção. Muitas vezes, ela diz, a mulher até sabe que o marido tem relação fora do casamento e faz de conta que não sabe.
O marido, por sua vez, acredita que nunca vai ter relação com uma pessoa com Aids. Ele pensa que a pessoa com Aids é feia, lamenta. Segundo ela, a doença atualmente tem se alastrado principalmente entre as pessoas pobres, jovens, de escolaridade baixa, do sexo feminino e do interior. Essa é a cara da Aids hoje no Brasil, diz.


