Nesta época do ano, a estudante Silene de Araújo, 12 anos, mata aulas e vai para a roça com a família colher algodão. Silene mora com os pais e três irmãos no Parque Industrial, um dos bairros mais pobres de Umuarama. Toda a família trabalha de bóia-fria. Durante a colheita de algodão, Silene também vai para a roça ajudar a reforçar a renda doméstica. Ela garante que o trabalho não atrapalha os estudos. ‘‘Eu só venho de vez em quando e a diretora da escola sabe que se eu faltar é porque fui catar algodão com minha mãe’’, diz. Ela frequenta a 5ª série na parte da manhã na Escola Municipal Sebastião de Matos, no Parque Daniele.
A mãe de Silene, Maria José de Araújo, 52 anos, também afirma que leva a filha para a roça ‘‘só de vez em quando’’. Segundo a mãe, Silene foi colher algodão esta semana para ajudar a comprar uma rifa da igreja. A rifa, no valor de R$ 20,00, é para arrecadar dinheiro para comprar as roupas das meninas que atuam como coroinhas durante as missas. Silene integra o grupo de coroinhas. O pai dela, Virgílio de Araújo, 65 anos, tem problemas na coluna e não está conseguindo trabalhar. Quando pode, ele também vai para as lavouras de algodão ou recolhe papelão nas ruas. ‘‘A gente ganha pouco, mal dá para sustentar a casa. Por isso, os filhos acabam tendo de trabalhar também ’’, lamenta.
Silene não reclama do trabalho duro na roça. Acha que colher algodão não é tão difícil, mas preferia estar na escola. Ela diz que só reprovou na escola uma vez, na 1ª série, quando a família foi para Minas Gerais trabalhar em lavouras de café. ‘‘Agora, mesmo perdendo algumas aulas para colher algodão, eu consigo passar de ano’’. Silene não sabe quanto ganha por um dia de trabalho. O algodão que colhe é pesado junto com o da mãe. ‘‘Quando ela vem junto, a gente colhe de quatro a cinco arrobas por dia. Sozinha ou consigo colher no máximo três arrobas’’, calcula a mãe. Os bóias-frias ganham R$ 1,40 por arroba. ‘‘Teve uma semana que eu e minha mãe conseguimos tirar R$ 45,00’’, comemora Silene.
Durante a colheita de algodão, dezenas de crianças e adolescentes na região de Umuarama abandonam a escola para ir para a roça com a família. O número de crianças bóias-frias diminuiu bastante nos últimos quatro anos graças a programas que fornecem cestas básicas para famílias carentes manterem os filhos na escola. Outro fator que também ajudou foi a redução do plantio de algodão. Segundo professores de Perobal, Alto Piquiri e Iporã, onde muitas crianças e adolescentes ainda trabalham de bóia-fria, a evasão escolar durante a colheita de algodão agora é bem menor. Há três ou quatro anos atrás, até 90% dos alunos de algumas turmas faltavam durante a colheita de algodão.Vânia MoreiraEsforçoSilene de Araújo, 12 anos, deixa de frequentar as aulas durante o período de colheita do algodão para ajudar a reforçar a renda da famíliaVânia Moreira

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