Ele tem corpo de lata, pernas e braços de papelão, cabeça de papel, olhos de tampinhas de garrafa, boca vermelha, narigão preto e cabelos de lã. Tem também um pênis de sucata. Se chama Renato e foi idealizado por alunos de uma classe de educação infantil do Centro de Atendimento Integrado à Criança (Caic) Dolly Jess Torresin, da Zona Sul de Londrina. Sexo e nome do boneco foram decididos por votação pelos 22 estudantes com até cinco anos de idade, que a partir deste semestre passaram a conversar abertamente sobre sexualidade na escola e em casa.
Iniciativa de levar educação sexual até as crianças partiu da pedagoga Juliana Lopes Garcia, que teve contato com o tema inicialmente há três anos, quando lecionava numa escola particular, e decidiu participar dos Grupos de Estudos em Educação Sexual (Gees) promovido pelo departamento de Psicologia da Universidade Estadual de Londrina (UEL), no ano passado, para se capacitar.
Com a experiência obtida nos encontros na universidade, Juliana convenceu outras oito professoras do Caic a formar um grupo de estudo para discutir o tema e educar cada vez mais crianças. Sob a supervisão de um psicólogo do Gees, elas se reúnem por duas horas e meia após as aulas, quinzenalmente, para falar de sexo.
No encontro, elas conversam sobre situações nunca antes imaginadas pelo grupo. ''Muitas tinham ideias equivocadas e passaram a repensar preconceitos e valores'', comenta Juliana, para quem a sexualidade deve ser construída ''desde que nascemos''. ''Se não trabalharmos agora com as crianças fica mais difícil desconstruir preconceitos no futuro'', opina.
''Mesmo aos quatro, cinco anos a criança já demonstra interesse no tema, especialmente porque vê a mãe ou a tia grávida e se questiona como nascem os bebês'', comenta Juliana. Nas aulas, ela levanta hipóteses em parceria com as crianças e juntos desvendam um assunto que ainda é tabu em tantas famílias, apesar de os pais dos estudantes - e a direção do Caic - apoiarem o projeto.
Com a ajuda de livros ilustrados com figuras do universo infantil, a pedagoga debate temas como corpo humano e parto. ''Muitas vezes eles trazem a informação correta, mas em outros casos o tema é velado'', revela Juliana, alertando para a importância de sanar as dúvidas e garantir conhecimento correto na escola. ''Mesmo porque eles conseguem muita informação fora'', completa a professora, citando que os filhos têm conversado mais com os pais sobre o que aprendem no colégio.
''Saímos de um extremo, quando tudo era considerado tabu e era feito de forma escondida, para a total banalização do sexo. Mas o importante é construir uma ideia saudável sobre sexualidade'', ensina a pedagoga, contando que os alunos até criaram uma história com base no conteúdo aprendido em sala, na qual a personagem principal estava grávida e ganhava o nenê de parto normal.

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