Sexo e Comportamento
Sobressaltados pela morte de modelo brasileira em consequência de anorexia nervosa, vimos recentemente a mídia reportar a tragédia de Ana Carolina. Diante de histórias assim, muitos se perguntam sobre as causas, como detectar, prevenir e tratar o problema.
Suas raízes não se resumem a uma causa. Nem mesmo podemos afirmar ''a'' anorexia, pois, como em outros transtornos da subjetividade, vale o ditado de que cada caso é um caso. Mas ainda que não seja doença exclusiva de nossos tempos, a moda anorética fornece exemplo bem atual de como fatores socioculturais e coletivos aliam-se a aspectos psíquicos para formatar as psicopatologias atuais.
Não é estranho, portanto, que a anorexia acometa mais tipicamente (embora não exclusivamente) mulheres jovens e ocidentais de classe média e alta, cujos conflitos inconscientes próprios da adolescência se dão num contexto devorado por inquietos imperativos estéticos e consumistas. Nervosa é nossa época...
O tratamento é difícil, alertam especialistas: a auto-imagem corporal inconscientemente distorcida da anorética silenciosamente zombará, no melhor estilo ''belle indifférence'', de frustrados familiares, clínicos e terapeutas que, em vã onipotência, ingenuamente lhe tentarem convencer com clichês do tipo ''mas você não está gorda...''. Diz a história que nem São Francisco em seu tempo conseguiu convencer uma santa - anorética - a comer.
Egos infantis e raquíticos, desprovidos de alicerces simbólicos que sustentem ambições mais consistentes e sublimadas, serão sempre impacientes, distantes daquela serenidade mínima que lhes evitaria modismos imediatistas, superficiais e insaciáveis. Esse é o ponto de partida a refletir. Se essa inanição simbólica e afetiva resultará em anorexia ou obesidade, é o detalhe.
Nos dois extremos, não é difícil apontar o fracasso do jovem em encontrar destinos menos oralizados e espetaculares para suas ansiedades ou frustrações. Mais penoso será admitirmos o fracasso de nossa geração de nutrir crianças e adolescentes com ambições menos efêmeras que a promessa milionária embutida num corpinho top model. Enquanto nos faltar a fome de valores mais consistentes e duradouros, sobrarão obesinhos para as redes de fast-food e anoréticas para os vendedores de ilusões.
Marcelo J. Castro, médico e psicanalista





