O hipogonadismo é uma condição clínica na qual níveis subnormais de testosterona estão associados a sinais e sintomas específicos, que incluem a diminuição da libido, disfunção erétil, sensação de bem-estar, redução da massa muscular e óssea, alterações do humor e anemia. Estima-se que 21% dos homens entre 60 e 80 anos e mais de 35% dos homens com idade superior a 80 anos sejam hipogonádicos. Todos eles podem se beneficiar da terapia de reposição hormonal com testosterona (TRT).
Esses dados tornam-se mais relevantes quando se observa o aumento e perspectivas futuras na expectativa de vida da população, especialmente em países mais desenvolvidos. A TRT pode melhorar os aspectos clínicos relacionados à deficiência androgênica acima enumerados.
Entretanto, uma das maiores preocupações no que concerne à reposição hormonal de testosterona é a possibilidade deste hormônio poder levar ao desenvolvimento do câncer de próstata. Na realidade, a relação entre câncer de próstata e testosterona é extremamente controversa e indefinida.
Estes aspectos estão relacionados ao desconhecimento da etiologia do câncer de próstata, uma vez que apenas fatores de risco como idade, dieta rica em gorduras, fatores raciais e genéticos foram até agora relacionados com a maior incidência do câncer de próstata.
A maioria dos estudos da literatura que avaliam a relação entre níveis endógenos de testosterona sérica com a incidência de câncer de próstata mostraram resultados inconsistentes, quando não, negativos. Além disso, estudos publicados recentemente mostram uma relação positiva entre câncer de próstata mais indiferenciado e em estágios mais avançados em homens com níveis subnormais de testosterona do que o observado em homens normogonádicos.
Por outro lado, estes dados controversos tornam-se ainda mais substanciais quando séries recentes de indivíduos tratados por meio de reposição hormonal de testosterona são analisados no que concerne ao desenvolvimento de câncer de próstata. Estima-se que cerca de 30% dos homens com até 50 anos apresentem neoplasia de próstata histológica. Esta cifra ascende a 70% quando homens com mais de 80 anos de idade são avaliados. Entretanto, somente 10% destes tumores evoluem para doença clínica relevante.
A presente e maior análise de trabalhos publicados na literatura revelou que somente 22 (0,96%) casos de câncer de próstata foram observados entre 2.283 homens tratados com TRT, quando seguidos por três meses a 15 anos. Esta taxa é similar a observada na população em geral.
Entretanto, é importante enfatizar que na ausência de séries longas, randomizadas e controladas com placebo em um contingente grande de homens, os dados atuais presentes na literatura devem ser analisados com cautela e o tratamento de homens com TRT deve seguir as recomendações descritas na literatura e ser orientado por profissional médico.
Ernani Luis Rhoden, livre-docente em Urologia

mockup