Severina, pioneira, cuidou dos dentes de colonizadores
Mario CésarLEMBRANÇASSeverina Alho mostra a cadeira que usava em seu consultório e que hoje pode ser vista no Museu Padre Carlos Weiss. No detalhe, a recordação da formaturaSeverina, pioneira,
cuidou dos dentes
de colonizadores
Lúcio Horta
De Londrina
Em meio às tecnologias mais avançadas e programas de tratamento inovadores, o 1º Congresso Mundial de Odontologia, promovido pela Associação Odontológica do Norte do Paraná e encerrado sábado no Complexo Marista, em Londrina, reservou um momento singelo e especial. Foi a homenagem, no data de encerramento, à pioneira Severina Alho, 82 anos, a primeira mulher dentista e a segunda profissional da área que atuou em Londrina a partir da década de 30.
Hoje aposentada, a dentista recebeu certificado, troféu e até emprestou o próprio nome para batizar o espaço cultural do Congresso. Mas foi o carinho e os aplausos da platéia - formada sobretudo por estudantes e profissionais da odontologia - que mais emocionaram a dentista. O povo de Londrina é que é maravilhoso. É ele que me recebeu com tanto carinho, quem deveria receber tudo isso. Eu não fiz nada mais do que deveria ter feito, retribuiu ela, ainda emocionada e sem entender o motivo de tantas homenagens.
A recordação da formatura
A história de doutora Severina, como era chamada, começou em meados da década de 20, numa ampla residência da Rua Benjamin de Oliveira, no Brás, em São Paulo. Era uma região movimentada, para onde seguiam pessoas com os mais variados objetivos: desde fazer compras até procurar diversão ou tratamentos médico e odontológico. Eles saiam dos arrabaldes para ir ao centro, lembra a doutora Severina.
O grande espaço da casa da família Alho permitiu que uma das salas fosse alugada para abrigar o consultório de uma dentista, chamada Clementina Faro. O contato com a profissional despertou em Severina o desejo de seguir a mesma carreira. Eu tinha 10, 11 anos e ficava olhando o trabalho dela. Até que ela perguntou se eu queria ser dentista. Não tive dúvidas: respondi que sim, relembra.
E isso ocorreu de forma precoce. Com uma bolsa de estudos, conseguida com a interferência da própria Clementina Faro, a então garota Severina entrou na Escola de Farmácia e Odontologia (atual Universidade de São Paulo), que ficava no bairro do Bom Retiro, em frente ao Colégio Santa Inês. Em 1933, com apenas 16 anos, já estava formada. Eu gostava muito de estudar, era aplicada, e não tive dificuldades, diz.
Menor de idade, doutora Severina lembra que precisou de uma autorização especial de um juiz de direito para receber o diploma. Arrumou um advogado, amigo da família e foi ao encontro do magistrado. O juiz pôs a toga, a beca, e perguntou se eu queria me formar. Respondi que sim, que não queria perder os anos de estudo e que não iria abandonar a profissão. E aí o juiz permitiu, conta.
Pouco tempo depois de formada, no entanto, doutora Severina sofreu a morte da mãe - o pai já tinha falecido cerca de quatro anos antes - e resolveu deixar São Paulo. Abandonou o emprego de secretária que tinha na capital paulista e veio para Londrina, onde passou a morar com o tio Caetano Otranto (posteriormente homenageado com o nome de uma rua no Jardim Shangri-lá, na região central da cidade. Isso tudo em 1934, quando Londrina ainda dava os primeiros passos e vivia do trabalho pesado dos pioneiros.
Logo que chegou à cidade, Severina conheceu e passsou a trabalhar com Brasil Campanhan - de fato o primeiro dentista de Londrina. Ele me chamou para ajudá-lo. Até que um dia eles (o pioneiro e a família) voltaram para São Paulo e eu fiquei com o consultório dele. Meu tio ainda brincava comigo, dizia que eu era muito moleca e não conseguiria ninguém para tratar. E ocorreu justamente o contrário: tive muitos clientes desde o começo.
Entre as pessoas que passaram pela cadeira de doutora Severina estão personalidades da história londrinense, como o primeiro prefeito eleito Willie Davids. Depois do casamento, no entanto, em 1938, a maioria da clientela era formada por mulheres e crianças. Mas tinha exceção. Ela não esquece, por exemplo, quando teve que atender uma alta autoridade da embaixada de Portugal que chegou à Londrina. Meu marido, que era português, foi cônsul honorário e recebeu a visita dessa autoridade, que estava com muita dor de dente. Eu o coloquei na cadeira, fiz um tratamento, com algodão desvitalizador e a dor passou. Meu marido quase não acreditou, lembra.
A carreira da dentista prosseguiu até os 60 anos de idade, quando ela e marido (já falecido) decidiram que estava na hora de parar. Atualmente, doutora Severina não está atualizada sobre as novidades tecnológicas que estão à disposição do profissional de odontologia, sobretudo aquelas apresentadas durante o Congresso Mundial.
O laser, por exemplo, utilizado hoje em vários tratamentos, é muito diferente do equipamento de quando ela começou a trabalhar e que hoje faz parte do acervo do Museu Padre Carlos Weis: era um motor de pedal, que não necessitava de energia elétrica. Depois também tive o motor elétrico. Mas quando acabava a luz, tinha o de pé. Teve muito dentista que dizia pagar qualquer preço por ele, garante.
Da aposentadoria para cá, o tempo da dentista passou a ser ocupado com a família, sobretudo os quatro filhos. Mas as lembranças daquele tempo ainda estão vivas na memória de doutora Severina, que guarda com carinho, pendurado na parede, o diploma do curso de odontologia. Também estão sempre à mão as fotografias dela e dos colegas da época de faculdade. Eu gostava muito da minha profissão, da época que era estudante. Tenho muita saudade e sinto muita falta desse tempo, afirma.
PERFIL
Nome: Severina Alho
Idade: 82 anos
Profissão: dentista aposentada
Hobby: ficar com a família
Destaque: foi primeira mulher dentista de Londrina e a segunda profissional da área na cidade





