'Setor fúnebre' também tem queixa contra os caloteiros
ECONOMIA
Setor fúnebre também tem
queixa contra os caloteiros
Se os mortos não incomadam, os vivos costumam dar dor de cabeça para quem vive da morte. É que o calote também está instituído no setor fúnebre e não perdoa ninguém, do agente funerário às mulheres que vivem da limpeza de túmulos. O nó cego existe em toda parte, desabafa o gerente das duas funerárias de Campo Mourão, José Sobral da Silva, 55 anos, mostrando um maço de notas que tem para receber. O prejuízo é grande.
Sobral admite que o número de cheques sem fundos que chegam à funerária não é grande, mas os clientes usavam outras formas de calote. O cidadão chega aqui, escolhe o caixão e na hora de acertar diz que tem que falar com o restante da família, explica o gerente. Ele fica de voltar no outro dia, mas não volta mais. Casos como esse geralmente acabam sendo protestados. Somos uma concessionária pública e não podemos deixar de vender a ninguém.
Sobral lembra de um caso recente, quando uma viúva escolheu uma urna funerária de R$ 2 mil para o marido, mas avisou que o pagamento seria feito por uma filha, que morava em Cuiabá (MT), que tinha condições de pagar. Após o enterro, no entanto, a filha chegou e avisou que havia autorizado a compra de um caixão, mas não um tão caro. Ela chegou a dizer que poderíamos pegar o caixão de volta, conta Sobral. O caso está no protesto.
O gerente lembra também que já chegou a receber um trator velho como pagamento de um atendimento funerário. Para não perder tudo, pegamos o trator, mas esse não é nosso ramo, frisa. Sobral lembra que a funerária é filiada ao Serviço de Proteção ao Crédito (SCPC), mas admite que não acha jeito de fazer a consulta no ato da venda. As pessoas já não gostam de funerária, imagina, então, se eu começar a ligar para o SPC na frente delas.
Radical O pedreiro Joaquim Sabino, 64 anos, que trabalha há 27 anos somente fazendo túmulos no Cemitério São Judas Tadeu, em Campo Mourão, também já sentiu na pele o calote. Algumas pessoas contratam nossos serviços e esquecem que têm que pagar, ressalta. Pelo menos um cliente, porém, fez Sabino perder a paciência. Ele construiu um túmulo simples, na época orçado em R$ 80,00, mas não conseguiu receber.
A família ficava sempre pedindo para eu voltar no dia seguinte, lembra Sabino. Depois de várias tentativas frustradas de receber, o pedreiro tomou uma decisão radical: desmanchou o túmulo. Não foi pelo dinheiro, mas pelo desaforo, explica Sabino, que ficou no prejuízo devido ao material de construção perdido.
O calote também é a principal queixa entre as mulheres que trabalham, de forma autônoma, na limpeza de túmulos no São Judas Tadeu. Já perdi muito serviço, reclama Aparecida da Silva, 51 anos, que há cinco deixou de ser bóia-fria para trabalhar como zeladora de túmulos. Segundo ela, as pessoas contratam os serviços e esquecem de pagar. Outras, conta, chegam a negar que tenham pedido para que o túmulo da família fosse limpo. (S.S.)





