Setor chegou a movimentar US$ 18 bilhões em 94
Cifra representa mais do que o triplo da previsão de orçamento do governo do Paraná para o próximo ano
O contrabando-formiguinha de produtos estrangeiros foi responsável por um dos mais importantes ciclos econômicos da fronteira entre Brasil e Paraguai. No pico desse processo, em 1994, o faturamento do comércio de Ciudad del Este atingiu a fabulosa marca de US$ 18 bilhões, segundo estimativa da Prefeitura de Foz do Iguaçu.
Para se ter uma idéia, essa cifra representa mais do que o triplo da previsão de orçamento do governo do Paraná para o próximo ano R$ 9,2 bilhões (aproximadamente US$ 5 bilhões, pelo câmbio comercial da última sexta-feira). Em 94, a revista Forbes uma das principais publicações econômicas do mundo , classificou Ciudad del Este como o terceiro maior pólo comercial do planeta, atrás de Hong Kong e Miami.
O ciclo dos sacoleiros começou em 1980, quando o Brasil vivia um processo recessivo, com altas taxas de desemprego e sobretaxa à importação de produtos. Brasileiros desempregados passaram a ver na zona franca informal da cidade paraguaia uma forma de obter renda, trazendo produtos de todas as partes do mundo para revendê-los no País.
O principal chamariz eram os eletrônicos. Enquanto um vídeo-cassete custava o equivalente a US$ 1 mil no Brasil, em Ciudad del Este esses aparelhos vindos da Ásia, com mais recursos tecnológicos que os nacionais custavam, em média US$ 400,00. Na revenda, os sacoleiros conseguiam lucro de até 100%, mesmo cobrando preços abaixo do pedido pelo produto nacional.
No biênio 93-94 auge desse ciclo , Ciudad del Este chegou a receber cerca de 4,2 milhões de compristas por ano. Houve um aumento da população e um impulso extraordinário na economia das duas cidades. Em Foz, o número de moradores saltou de 136 mil, em 1980, para pouco mais de 200 mil, em 95. Foram abertos cerca de 100 hotéis com preços e qualidade de serviços baixos.
Em Ciudad del Este, a população passou de 50 mil para quase 180 mil habitantes. A cidade ganhou 8 mil lojas, apinhadas em um minúsculo centro comercial com cerca de dez quarteirões, ruas estreitas, sujas e com um trânsito caótico.
A cota de compras permitida aos brasileiros era de US$ 250,00. Mas, favorecidos por uma fiscalização complacente da Receita Federal e pelo movimento frenético, que impedia uma revista individualizada nas bagagens na aduana da Ponte da Amizade, os sacoleiros compravam, em média, o equivalente a US$ 1,6 mil a cada viagem.
A abertura do mercado brasileiro às importações iniciada em 1990, no governo de Fernando Collor, e consolidada em 95, no primeiro mandato de Fernando Henrique Cardoso e a globalização econômica gerada pelo Mercosul, que entrou em vigor em 95, decretaram o fim desse ciclo.
Com os portos abertos à entrada de mercadorias estrangeiras, os brasileiros não precisaram mais cruzar o País ou esperar os sacoleiros fazerem isso para se abastecer das novidades do mundo em Ciudad del Este. Além disso, uma das exigências do Mercosul foi a redução do limite de compras que o brasileiro poderia trazer do exterior.
Em novembro de 95, o governo brasileiro reduziu a cota em 40% de US$ 250,00 para US$ 150,00. Além disso, a Receita Federal endureceu a fiscalização, confiscando as mercadorias que excediam o limite.
O movimento de sacoleiros foi caindo gradativamente. Atingiu 2 milhões em 1998. Segundo estimativa da Secretaria de Turismo e Desenvolvimento Econômico de Foz do Iguaçu, neste ano o número deverá chegar, no máximo, a 1 milhão de pessoas.
O faturamento do comércio de Ciudad del Este neste ano não passará de US$ 3 bilhões. Desde o início da crise, mais de 2 mil lojas da cidade já fecharam. Em Foz, a maior parte do complexo para atender compristas fechou as portas ou redirecionou suas atividades.
O problema foi criar um ciclo de desenvolvimento virtual, sustentado no contrabando, analisa Luiz Carlos Kossar, de 45 anos, diretor do Departamento de Informações Institucionais da Prefeitura de Foz e estudioso do assunto. (V.D.)





