BELEZA INESQUECÍVEL Sete Quedas ainda alimentam sonhos Geógrafo viu em 1982 a água cobrir uma das maravilhas do mundo e tem a esperança de rever o que a tecnologia engoliu Arquivo Folha/DivulgaçãoO PASSADOAs Sete Quedas, no início da década de 80, antes da elevação das águas que cobriram suas rochasArquivo FolhaO PRESENTEEstiagem em janeiro deste ano: rebaixamento do nível da água deixa à mostra rochas e árvores secasArquivo pessoalArquivo pessoalTuristas caminham por áreas que normalmente estariam tomadas pelas águas (acima). Ao lado, o geógrafo Tarcísio Vanderlinde: ‘‘Quem sabe, tal qual Fênix, um dia elas ressurjam’’ Paulo Pegoraro De Cascavel Entre os ambientalistas que em outubro de 1982 acompanharam, desolados, a elevação das águas do Rio Paraná e sua transformação em reservatório da hidrelétrica de Itaipu, estava o geógrafo Tarcísio Vanderlinde, 46 anos, professor da Universidade Estadual do Oeste do Paraná (Unioeste), de Cascavel. Tarcísio viu a água encobrir uma das maravilhas naturais do mundo, as Sete Quedas, em Guaíra (158 km ao norte de Cascavel). Passados quase 18 anos, o geógrafo especula: ‘‘Quem sabe, tal qual Fênix, um dia elas ressurjam’’. A princípio, isso é impossível, segundo a Binacional Itaipu. Tarcísio Vanderlinde retornou há poucos dias à região, com a família, para contemplar, saudoso, mas também com interesse científico, o aparecimento de pontas das Sete Quedas. Isso ocorreu por causa de prolongada estiagem em cabeceiras do Rio Paraná e afluentes, forçando o rebaixamento da cota (nível) do reservatório: normalmente em 220, ela chegou a baixar para menos de 215,82 no final de janeiro (reaproximando-se depois do normal), propiciando o aparecimento de pontas do Salto 14, a formação mais alta. Muitas pessoas de Guaíra passaram a ‘‘sonhar’’ com o dia em que as Sete Quedas reaparecessem por inteiro. O geógrafo observa que ‘‘o sentimento’’ das Sete Quedas permanece vivo na cidade – que era visitada por turistas de todo o mundo até 1982. ‘‘É preciso que seja assim, em respeito às cidadanias e futuras gerações.’’ Ao retornar para casa com a esposa e as três filhas menores, ele diz: ‘‘Fiquei pensando na possibilidade de pelo menos meus netos um dia poderem ver plenamente aquelas lindas cataratas, e não apenas as ficarem imaginando’’. O sonho reviveria a mitologia egípcia da ave (Fênix) que, queimada, ‘‘renascia das cinzas’’. A possibilidade imaginada pelo geógrafo é também sonhada por pessoas de Guaíra, como o secretário de Turismo Pedro Venâncio, que defende ‘‘um movimento para Itaipu devolver esta maravilha à humanidade’’. Para isso, segundo ele, bastaria ‘‘baixar o reservatório em 10 metros’’. Vanderlinde, porém, projeta o futuro, ‘‘quando outras fontes de energia que não agridam o meio ambiente mostrem-se viáveis’’. Itaipu, assim, poderia ser desativada, o nível do reservatório baixado de forma expressiva e as formações rochosas ressurgiriam, conforme imagina o geógrafo. O engenheiro Elias Absy, do Departamento de Desenvolvimento Regional de Itaipu, reconhece as Sete Quedas como tendo sido de ‘‘importância cênica’’, mas considera ‘‘absolutamente improvável’’ que elas um dia ressurjam. Elias explica que hidrelétricas têm ‘‘vida útil’’ projetada. No caso de Itaipu, teoricamente é de 50 anos. No entanto, ele frisa que esta ‘‘vida’’ é apenas utilizada como parâmetro para projetar o tempo em que o investimento feito numa usina ‘‘se paga e remunera o capital’’, porque há no País várias usinas de tecnologia muito inferior, ‘‘que já são mais que centenárias’’. Mesmo que no futuro se utilize energia de fonte mais barata que a dos rios, Itaipu ‘‘ainda continuará sendo importante para o sistema’’, acrescenta o engenheiro. Em relação ao assoreamento da barragem, outro fator de comprometimento, Elias Absy relata que há estudo oficial indicado que ele só ocorrerá em 300 anos. Além disso, explica que o nível do reservatório teria que baixar 12 metros para aparecer alguns contornos mais definidos das pontas das Sete Quedas, e que elas só ressurgiriam plenamente em seu esplendor se as águas baixassem aproximadamente 60 metros. Ou seja, com Itaipu desativada.