Sete décadas de memórias
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quinta-feira, 05 de setembro de 2013
Micaela Orikasa<br>Reportagem Local 
Londrina - Em meio aos passos apertados daqueles que passam pela Praça Marechal Floriano Peixoto, no centro da cidade, um contraponto. Sentado em um dos bancos, com os olhos voltados para o agito do lugar, Daniel Souza, de 82 anos encontra ali o descanso e o clima perfeito para pensar na vida. "Sempre que venho para o centro dou uma passadinha aqui para espairecer", comenta o aposentado, que com sua atitude chama a atenção nos dias de hoje.
Isso porque o local onde gosta de frequentar comemora amanhã, no dia 7 de setembro, sete décadas desde a reinauguração em 1943, quando a praça ganhou contornos considerados modernos para a época. Os caminhos cruzados e que se interligam ao meio remetem à bandeira inglesa, porém, na inauguração, jornais e revistas não fizeram nenhuma referência a isso.
Dono de um conhecimento histórico, o arquiteto e coordenador do Laboratório de Paisagem da Universidade Estadual de Londrina (UEL) Humberto Yamaki, conta alguns desses detalhes não só para resgatar a memória da praça, mas na defesa da recuperação do que ele chama de "espaço símbolo da cidade".
Ele conta que na Planta Inicial de Londrina, datada em 1932, a quadra número 20 localizada ao lado do terreno da Igreja Matriz trazia a indicação de local como "jardim". "Na década de 30, era considerado um dos pontos mais pitorescos de Londrina e foi frequentemente fotografado por J. Juliani", completa Yamaki.
Mesmo não sabendo que a praça completará sete décadas, o aposentado Souza se recordou dos tempos em que levava os sete filhos para passear no local, aos feriados. "Aqui sempre foi um lugar bom. Hoje está bem diferente, mas continua guardando boas recordações", diz.
O aposentado Francisco Storto, de 80, lembra que na década de 1930 a praça era habitada apenas pelo mato e que só anos anos mais tarde ganhou "cara de praça". O arquiteto Yamaki comenta, porém, "que entre as as árvores e tocos remanescentes de derrubada da floresta, era possível observar a existência de caminhos de terra em diagonais. Em pouco tempo, no centro da praça seria construído um colossal monumento denominado Altar da Pátria". Aos domingos, a Avenida Paraná, entre as avenidas São Paulo e Rio de Janeiro, era fechada para automóveis e liberado para o passeio de pedestres.
Pipoqueiro e sorveteiro
"As famílias ficavam na praça até tarde da noite e a toda hora apareciam moças e rapazes para fotografar. Os jardins eram cheios de roseiras, de todas as cores e, fora os lambe-lambes, tinha pipoqueiro, sorveteiro e cachorreiro. Era muito bom", relembra Messias Bezerra, fotógrafo lambe-lambe há 51 anos na Praça Marechal Floriano. Ele é o único que sobrou dos seis profissionais que atuavam no local.
"Em toda a cidade eram apenas 16. Vim para Londrina ainda pequeno, quando meus pais vieram trabalhar no café. Eu passava por aqui e via o J.Juliani trabalhando. Dizia que queria fazer aquilo. Meu pai achava pura besteira e dizia que eu tinha que plantar café. Com o passar dos anos, fui aprendendo e estou até hoje, mas infelizmente os materiais ficaram caros e agora tenho que trabalhar com a máquina digital", explica.
Hoje, aos 67 anos, Bezerra continua sentado na esquina da praça, com seu cavalinho e o maquinário antigos, ambos de fabricação própria, a esperar os clientes. "Não é como antigamente, claro, mas meu lugar é aqui. Já fiquei conhecido e tenho muitas fotografias na memória, como as comemorações do Dia da Independência, quando policiais, grupos escolares e a banda de músicos hasteavam a bandeira durante uma semana da pátria. Era uma festa", salienta. O ato é um forte indício para que ela se tornasse conhecida como "Praça da Bandeira".
Outro ponto curioso e marcante também é revelado por Yamaki. Ele conta sobre os bancos bola confeccionados em cimento com base em formato de esferas. "Dispostos simetricamente, reforçavam o traçado geométrico da praça. O aceite da população por esse logradouro era tanto que, segundo o noticiário da época, as famílias esperavam horas para conseguir sentar num desses bancos", completa.
Invisível
Com os olhos agora no presente, o arquiteto e professor afirma que a praça continua movimentada, mas agora "como um local de passagem e de rodas de aposentados. Ao entardecer, mães com crianças podem ser vistas esporadicamente. Nos finais de semana o local vira deserto. Com o passar do tempo a Praça Marechal Floriano se tornou invisível à maioria dos moradores", declara.
Essa observação define grande parte das pessoas que passam diariamente pelo local, mas menos para Souza e Bezerra, que ainda preservam, à maneira deles, costumes daquela época em que frequentar a praça era o passatempo preferido. Por mais que eles passem despercebidos, eles são na verdade a memória viva desse "grande jardim".


