Mário CésarAbnegadoFaísca: responsabilidadeFaísca é um cidadão londrinense. Os contribuintes nem sabem disso, mas esse personagem anônimo procura cuidar com carinho do dinheiro que cada contribuinte desembolsa regularmente em forma de impostos. Faísca é um daqueles servidores públicos com que todo mundo gostaria de contar.
Aparecido Firmino, o Faísca, é paulista de Lins, mas há 32 anos é funcionário da Prefeitura de Londrina, cidade que ele escolheu para formar família. Anonimamente, é Faísca quem faz uma parte da máquina pública municipal funcionar. Paga do próprio bolso, de vez em quando, a reposição de peças dos veículos de serviço da Autarquia de Meio Ambiente (AMA). Ou seja: literalmente está pagando para trabalhar.
Na gaveta da mesa de trabalho dele na AMA, é possível encontrar diversas notas fiscais. São notas de pneus, câmaras, que Faísca compra para que os veículos da Autarquia não sejam sucateados de vez.
‘‘Meu Deus, se estourar um pneu dessa pá-carregadeira agora, o serviço não vai sair no prazo’’, dizia ele no jardim Maria Lúcia, onde estava com outros operários e com uma pequena frota da AMA para remover o lixo que já começa a tomar conta de uma área da Prefeitura.
‘‘Agora, eu estou sem nenhum recurso’’, informava. Aos 59 anos, três filhos, 14 netos e um diabete que lhe inferniza a vida, Faísca recebe salário de R$ 1.260,00. A função que ele exerce na AMA é a de administrador de serviços. A frota da equipe de serviços da AMA, pela qual ele é responsável, tem seis caminhões, duas caminhonetes, um Fusca e uma pá-carregadeira.
O veículo mais novo tem quatro anos de uso - o mais antigo, quinze. Não é de hoje que a frota da Prefeitura está a caminho do ferro-velho.
Se um veículo da AMA quebra, e sempre que pode, Faísca dá um jeito de comprar a peça - tirando dinheiro do próprio bolso - para que a empreitada não seja interrompida. Foi assim tempos desses, lá no conjunto Novo Amparo, ele comprou um pneu (R$ 180,00) e uma câmera (R$ 30,00) para um caminhão da AMA.
Nunca ninguém foi lá dizer para Faísca que um dia o poder público vai acertar essas pendências financeiras com ele. Esse gesto já se tornou rotina para Faísca desde a administração passada.
No jardim Maria Lúcia, onde Faísca se encontrava trabalhando anteontem, a AMA está fazendo a remoção e o aterro do lixo que tem sido sistematicamente jogado lá, inclusive por caminhões particulares e moradores da região.
O trabalho deve terminar hoje. Se a pá-carregadeira não quebrar.

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