Hoje, o servidor público é o principal cliente das financiadoras de Curitiba. Tanto é assim, que propagandas publicadas em classificados de jornais da cidade reforçam as facilidades de empréstimos para a categoria. Crédito fácil com desconto na folha de pagamento, dinheiro vivo com cheques pré-datados ou com a penhora de mercadoria ou bens estão fazendo com que muitos funcionários fiquem ‘enforcados’ em dívidas, que crescem rapidamente, com os altos juros praticados. Segundo o Sindicato dos Servidores Públicos das Secretarias e Órgãos do Estado do Paraná (Sindiservidores), já existem funcionários públicos que foram despejados de suas casas, por não conseguirem quitar as contas.
O presidente do Sindiservidores, Vladimir França, conta que, nos últimos quatro anos, foram abertas dez agências de financiadoras no Centro Cívico. ‘‘Os baixos salários dos servidores e os altos juros das financiadoras estão quebrando quem recebe do governo estadual’’, diz França.
Ele conta que, dos 15 mil servidores inscritos em seu sindicato, 40% estariam com sua capacidade de endividamento estourada. ‘‘Eles não têm mais onde conseguir crédito para saldar suas dívidas’’, salienta. O salário base do funcionalismo varia de R$ 250,00 a R$ 550,00, valores que abrangem cerca de 40 mil pessoas.
Eduardo, que prefere não ter seu sobrenome divulgado, é um exemplo dessa situação. Trabalhando na Secretaria de Estado da Saúde e ganhando cerca de R$ 350,00, acumula uma dívida de R$ 1.200,00 junto a uma finaciadora. ‘‘É vergonhoso não conseguir pagar as contas e ter o seu telefone cortado em alguns meses’’, diz. Ele afirma que precisou dinheiro com urgência por causa do enterro de seu pai. ‘‘Depois disso, me afundei em dívidas’’, diz. ‘‘Hoje, não sei se vou conseguir quitar isso com facilidade’’.
Mercado atraente - De acordo com o supervisor técnico do Departamento Intersindical de Estatísticas e Estudos Sócio Econômicos (Dieese), Cid Cordeiro, a ação das financiadoras sobre os servidores pode ser explicada pela queda do poder aquisitivo dos funcionários públicos. Cid entende que as financiadoras emprestam dinheiro fácil, mas com juros irreais frente a uma inflação baixa, de 4% ao ano. A taxa cobrada por estas empresas pode variar de 9% a 20%, conforme o tempo e o valor emprestado.
Cordeiro afirma que a pressão sobre quem ganha pouco tende a aumentar por causa da elevação de alguns itens da economia. ‘‘Atualmente, o item alimentação e aluguel vem pressionando quem ganha pouco’’, diz Cordeiro. ‘‘Dados do governo estadual apontam que os salários do funcionalismo registraram uma queda de 42%, do governo José Richa até hoje’’, complementa Vladimir França.

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