As crianças que chegam ao HCL (Hospital do Câncer de Londrina) têm um oponente a menos para encarar durante o tratamento. Isso porque a equipe de odontopediatria vem acompanhando há cerca de quatro anos todos os pacientes que dão entrada no ambulatório. Esse cuidado é voltado exclusivamente para a prevenção e manutenção da saúde bucal para que as crianças não sofram com complicações orais – bastante comuns durante o tratamento do câncer - e consequentemente, tenham mais disposição e saúde para driblar a doença.

João Francisco recebe a visita diária das dentistas: trabalho preventivo
João Francisco recebe a visita diária das dentistas: trabalho preventivo | Foto: Gina Mardones - Grupo Folha

Essa visão global do paciente tem dado muito certo. Desde 2015, a instituição reduziu em cerca de 80% a incidência de mucosite oral entre as duas mil crianças que recebem atendimento odontológico a cada ano no HCL.

A dentista Raquel Pacheco de Almeida Prado, habilitada em Odontologia Hospitalar e Laserterapia, explica que, ao chegar no hospital, a criança recebe junto com toda a família orientações em higiene bucal, além de passar por uma avaliação da cavidade oral.

“Se ela precisar de qualquer adequação em relação, por exemplo, a uma gengivite, um dente cariado ou mesmo placa bacteriana, nós iremos proceder antes de iniciar o tratamento quimioterápico. A ideia é eliminar qualquer foco de uma possível complicação”, afirma.

A iniciativa é ótimo exemplo da importância da prevenção bucal porque todo o trabalho tem demandado muito mais comprometimento dos profissionais do que altos investimentos. “Nós só precisamos do aparelho de laserterapia. Como a aplicação leva de 30 minutos a uma hora, conseguimos atender um número grande de pacientes diariamente”, comenta Prado, que atua juntamente com a dentista Emanuela Pereira.

Antes deste acompanhamento diário, Prado conta que muitas crianças apresentavam o grau severo de mucosite, chegando a ficar até 20 dias internadas na UTI (Unidade de Terapia Intensiva). “Nós éramos acionadas somente para intervir nessas situações emergenciais. Mas hoje é diferente. Não deixamos que as boquinhas das crianças cheguem a esse estágio”, diz.

Para destacar os resultados, ela cita que de janeiro deste ano até agora somente três crianças tiveram mucosite grave. “As demais tiveram alterações, mas em um grau mais leve.”

Impacto

E o qual é o grande impacto dessa redução? A especialista diz que a resposta ao tratamento quimioterápico é melhor e mais rápida porque quando a criança apresenta qualquer complicação oral sente dor, deixa de se alimentar e consequentemente, a imunidade cai.

“Interfere em tudo, pois além de não comer, muitas vezes a criança não consegue nem falar porque a dor é extrema. Então, ela fica debilitada e não vai brincar também. Tudo isso acaba envolvendo a família e toda a rede de apoio, pois gera uma angústia”, comenta.

Quem compartilha um pouco dessa angústia é a mãe de Heitor Miguel Alves Pereira, de 2 anos. Ele está internado há duas semanas para o tratamento de leucemia e recentemente passou a chorar ao levar as mãos à boca. “Estava começando a sair feridas e a dentista também viu a presença de fungo. Foi aplicado laser e tudo desapareceu. Posso dizer que meu coração ficou mais aliviado porque eu via que ele estava sofrendo e o que é pior, perdendo o apetite”, conta Gleisy Kelly Alves da Silva.

A dona de casa Ana Caroline Ramos também acompanha o filho João Francisco, 7, no tratamento de leucemia. “Ele já passou por 11 sessões de quimioterapia e não teve mucosite. Acho que isso se deve ao trabalho preventivo das dentistas, que passam todos os dias aqui para ver o João. Tem sido fundamental”, diz.

Lesões se assemelham às aftas

Todas as crianças em tratamento de câncer podem apresentar infecções orais causadas por vírus, bactérias ou fungos, assim como ressecamento labial, alterações no paladar, deglutição e fluxo salivar.

Uma complicação bastante comum, mas que está associada diretamente à quimioterapia é a mucosite. É uma inflamação que surge pela reação do organismo à toxicidade das substâncias químicas. As lesões se assemelham a aftas, mas normalmente são maiores e podem atingir a boca inteira (gengiva, bochecha, embaixo da língua) e todo o trato digestório.

Porém, nem todos os pacientes vão apresentar essas lesões porque nem toda quimioterapia é tóxica para a cavidade oral. Vai depender das doses dos quimioterápicos e do organismo de cada indivíduo. “E nem todo ciclo a criança terá a mesma infecção. É por isso que a cada internação nós vamos monitorando. Se aparecer algum sinal, como alteração da coloração da mucosa ou uma pequena ferida, a gente pede para que a criança fique internada e iniciamos um tratamento imediatamente”, ressalta.

Além disso, quando há um protocolo no qual as dentistas já sabem que há um grande risco para mucosite, também é feito um trabalho preventivo com a laserterapia, incluindo retorno ambulatorial ao final do ciclo de quimioterapia.

Rede de apoio

Para que as crianças e familiares possam ser acompanhados diariamente no Hospital do Câncer de Londrina, o fortalecimento de uma grande rede de apoio é fundamental, pois boa parte dos pacientes vem da região metropolitana de Londrina. O HCL é referência no Paraná em tratamento do câncer, com uma média de 65 mil atendimentos ao mês.

A ONG Viver é uma das mais representativas. Há 18 anos, crianças, adolescentes e familiares são acolhidos, amparados e apoiados com serviços de alimentação, hospedagem, atividades de recreação, acompanhamento multidisciplinar, entre outros. Por mês, a entidade presta assistência a 180 pessoas.

Nas dependências do hospital, as famílias também contam com um atendimento multidisciplinar. A psicóloga Rita de Cássia Sanaiotti Grade Ferro tem experiência na área oncológica há nove anos e afirma que os adultos precisam ser sinceros com as crianças.

"Tem que falar abertamente e utilizar os termos corretos. Já é comprovado que a partir do momento que a criança sabe o que está acontecendo com ela a adesão ao tratamento é maior, assim como o enfrentamento da doença. Meu trabalho é orientá-los sobre como fazer isso e também interagir com os pacientes através de materiais lúdicos", pontua.

A dentista Raquel Pacheco de Almeida Prado tem habilitação em Laserterapia e explica que o uso do laser é apontado nos guidelines mais atuais para o tratamento de mucosite. A aplicação é indolor, rápida e tem efeito analgésico, anti-inflamatório e de reparação tecidual.

“Durante a quimioterapia, a célula que vai se danificar e com o laser conseguimos dar uma espécie de ‘energia’ para que ela não sofra tanta agressão e a reparação seja mais rápida”, diz. A especialista também explica que na laserterapia há dois comprimentos de onda.

A luz vermelha é utilizada quando se busca uma cicatrização superficial. “Já o infravermelho trabalhamos mais com analgesia porque conseguimos uma maior penetração nos tecidos, mas quando precisamos de uma ação antimicrobiana, podemos associar um corante que ajuda a diminuir a infecção e uma contaminação local”, detalha.

Os resultados, ainda de acordo com Prado, muitas vezes são visíveis de um dia para o outro. “Cada criança responde de uma maneira, mas normalmente o laser reduz pela metade a duração da infecção. Às vezes, a gente faz de manhã o acompanhamento e no dia seguinte a lesão já diminuiu, e os pais relatam que a criança mudou o comportamento, conseguiu se alimentar e tomar água”, revela.

Imagem ilustrativa da imagem Serviço odontológico em Londrina reduz em 80% casos de inflamações em crianças
| Foto: Folha Arte

Uma visão multidisciplinar no tratamento de crianças com câncer - em que o odontopediatra tem peso grande ao longo dessa jornada até a cura - ganha espaço crescente nos hospitais brasileiros, como aconteceu em Londrina há quatro anos. A saúde bucal de pacientes de qualquer faixa etária e outros tipos de doença fica em segundo plano, mas passa a ser pilar fundamental para que o tratamento seja eficiente.

A explicação é simples: numa pessoa saudável, micro-organismos da boca convivem com tranquilidade sem causar dano nenhum à saúde. Em pacientes imunodebilitados, podem causar uma série de problemas. “Qualquer situação bucal, como uma cárie, em pacientes oncológicos ganha dimensões maiores, podendo trazer riscos à saúde”, explica o cirurgião dentista, com doutorado em odontopediatria e diretor do Conselho Federal de Odontologia (CFO), Luiz Evaristo Ricci Volpato. O odontopediatra também faz parte do corpo clínico do Hospital de Câncer de Mato Grosso, em Cuiabá.

Volpato explica que hoje não consegue ver um cenário de tratamento em hospital sem uma atenção à saúde bucal. “Os principais hospitais hoje já percebem a fundamental importância do cirurgião dentista neste ambiente. Por isso temos batalhado muito para que seja obrigatório em todo país a presença desse profissional nos hospitais. Hoje, só temos leis pontuais (em alguns estados), como no Mato Grosso, com uma lei estadual que desde 2017 torna obrigatória uma assistência odontológica do paciente internado. Ainda não temos uma lei federal nesse sentido.”

Vilã antiga

Fora dos hospitais, o olhar para a saúde bucal das crianças precisa continuar intenso, segundo o diretor do CFO. Na semana passada, durante o 27º Congresso Brasileiro de Odontopediatria, que aconteceu em Maceió, foi batido na tecla que mesmo com a diminuição da prevalência de cárie na população de forma geral, nas crianças em idade pré-escolar a doença continua aumentando em âmbito mundial. “A cárie não é apenas o principal problema de saúde bucal das crianças, mas o principal problema de saúde das crianças, a mais prevalente. São diversos estudos que mostram que isso traz problemas para o resto da vida desses indivíduos.”

Ele cita que que a cárie continua atrapalhando o estudos da crianças, causando dores, má alimentação, problemas nutricionais, de autoestima e até depressão e outros situações emocionais. “Precisamos de políticas específicas para a prevenção de cárie, um problema de saúde pública. É necessário orientar os pais, escovar os dentes com pasta (fluoretada) dentro os primeiros anos de vida e, principalmente, diminuir o consumo de açúcar em nossa sociedade.” (Colaborou Victor Lopes)

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